Ano 10 – vol. 07 – n. 43/2022
O mundo está de ponta à cabeça. Mas o Brasil, ah! Esta pátria varonil supera qualquer limite. E eu poderia mencionar um caleidoscópio de exemplos. Do “quem ganhar vai perder”, passando pelo “despiora”, transitando pelo “a gente mentia, não tinha números, mas saia mentindo”. Mas sempre haverá lugar para mais uma estultice.
Na semana que passou um ex-jornalista do Jornal O Globo resolveu, em nota breve na extensão e nefasta na profusão, dizer para quem quisesse ler: “Turista é cercado por vulneráveis em farmácia do Leblon”. Sim, o Sr. Ancelmo Gois (ao que tudo indica em seu site) disse uma coisa dessas.
Estupefato, imaginei a cena:
– Senhor turista, ponha as suas mãos em sentido vertical! Somos vulnerais vítimas da sociedade desarmada e só nós temos o direito de portar armas, mesmo as de uso privativo das forças armadas! Não reaja. Temos o direito de atirar em legítima defesa!
Pus-me a refletir sobre o assunto e, coincidência ou não, desembarquei uma vez mais na Escola de Frankfurt, onde filhos de pais ricos produziram laudas e mais laudas para que filhos de pais pobres as difundissem pelo mundo, enquanto os autores se exilavam nas terras do imperialismo yankee.
E o que essa Escola tem a ver com a notinha? Tudo. É a retórica contendo uma releitura, no caso leviana ou criminosa, um exercício de ressignificação que pretende que a bandidolatria seja incensada, enquanto você, contribuinte, que financia a cara estrutura do estado, se sinta culpado e responsável. Ou seja, como já disse uma “filósofa”, “há uma lógica no assalt”.
Mas não desista, cidadão. Bandido é bandido. É o mesmo que te furta e te rouba mais de uma vez: subtrai teu patrimônio, financias o devido processo legal, financias a internação forcada dele e, para te sentires pior, financias a bolsa presídio.
Podem inventar, reinventar ou ressignificar o que quiserem, mas existem coisas que não mudam. Bandido no vocabulário correto sempre será bandido, ainda quando ganhe do estado a impunidade como prêmio.
Houve um tempo no Brasil em que essa gente elegante que hoje sente faltar o dinheiro para o pó e para o fumo era abastada por facilidades oficiais. Hoje a abstinência produz uma espécie de gente que torce para que tudo dê errado, ultraja instituições e valores nacionais e comemora a morte de policiais militares ou civis.
Como o leitor pode perceber, já não vale mais o aforismo (será isto mesmo?!) de que a testemunha é a prostituta das provas. Agora, são as palavras colocadas no papel com o cinismo dos autores que as põem a significar o que não traduzem em essência.
Quem são os vulneráveis, afinal? Muitos por muitas circunstâncias. Nenhum deles, entretanto, é vulnerável por opção. Já o bandido, sim, quando subtrai o que do trabalho não auferiu não é vulnerável. É só um bandido. Ladrão não é profissão, conquanto possa possuir admiradores, mas aí é só mais um tipo de subversão.
É preciso separar o joio do trigo, para que não se transforme em hábito, confundir significado com sinônimo, sob pena de se ler que a lei da gravidade não está mais em vigor, ou, ainda, que o bandido morreu com a bala perdida da polícia, mas passa bem no hospital. Nesse caso, vulnerável é a notícia.