UM SAPATO

Ano 14 – vol. 08. – n. 91/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.21861577

Acordei hoje e senti a falta
de um dos pés do meu sapato.

Olhei debaixo da cama.
Busquei na sapateira.
Não encontrei.

Sentei-me um pouco à beira da cama
e, terminadas as orações,
só então me pus a lembrar:

partiste descalço,
como foi teu desejo.

E me lembrei de que foste
meu próprio chão,
meu piso,
minha inspiração.

Compreendi, então,
que a falta de uma banda do sapato
não me impediria de caminhar.

Só mais tarde percebi
que meus passos,
com apenas um dos sapatos,
apenas traduzem
que o outro foi entregue aos filhos
que caminham comigo.

E a banda do sapato
que ainda ficou comigo
um dia também já não estará:

com eles ficará.

E aos filhos deles
também haverá de chegar.

Assim, de passos em passos,
de pais para filhos,
o sapato continuará caminhando
mesmo quando já não estivermos aqui.

Neste dia,
em que só te vejo nas fotografias
e te sinto no peito,
saudade e alegria se misturam
numa estranha sensação.

Não é vazio.

É um imensurável desejo
de ter-te novamente perto de mim,
ainda que por um breve momento.

E, se pudesse,
por um instante apenas,
tornar a ouvir tua voz
e te dizer somente duas coisas,
não precisaria de mais nada:

Benção, meu pai.
Bom dia.

PARTIDA E ADEUS

Ano 14 – vol. 07 – n. 89/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.21704181

Há aqueles que partem e há aqueles que dizem adeus.

À primeira vista, as duas expressões parecem equivalentes. Não são. Há quem desapareça sem deixar vestígios além da saudade doméstica. Outros partem apenas do convívio físico, porque permanecem vivos na lembrança daqueles que tiveram o privilégio de compartilhar sua caminhada. Não dizem adeus. Apenas seguem adiante, levando consigo uma história que o tempo não consegue apagar.

Foi com esse sentimento que fui surpreendido pela notícia da morte do confrade e colega Roque Pires Macatrão.

Ao encontrar-me casualmente com a confreira Clores Holanda, foi ela quem, com indisfarçável pesar, comunicou-me o falecimento do confrade.

Conquanto soubesse de sua comorbidade, a notícia alcançou-me em um momento particularmente delicado. Havia perdido dois irmãos no espaço de apenas um ano. Ainda buscava compreender a extensão dessas ausências quando fui alcançado por mais essa dolorosa partida. Confesso que fiquei profundamente atônito.

Ainda tentando me acostumar com esse quadro, recebi a notícia da morte dessa figura que tanto significou para mim em vida e que, estou certo, continuará presente na memória de todos quantos com ele conviveram.

Foi Roque quem me convidou para integrar, como membro fundador, a Academia Ludovicense de Letras. Devo-lhe essa distinção, que sempre recebi como uma demonstração de confiança e amizade.

Fomos confrades da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, mas nossa convivência vinha de muito antes, dos tempos da Ordem dos Advogados do Brasil.

Nas lides da advocacia estivemos, por vezes, em posições opostas; em outras, lado a lado. Em qualquer circunstância, porém, jamais deixou de dispensar-me respeito, atenção e consideração.

Na OAB tivemos divergências, como é próprio das instituições democráticas. Discordamos respeitosamente em alguns momentos, mas hoje me parece evidente que concordamos muito mais do que divergimos. A própria história o demonstra pelas realizações que ajudaram a construir uma nova realidade institucional entregue às novas gerações da advocacia maranhense.

Aos mais jovens, que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, vale registrar alguns traços de sua trajetória.

Roque Pires Macatrão nasceu na cidade de Brejo, em 13 de novembro de 1935.

Fez o curso primário no Grupo Escolar Cândido Mendes e, posteriormente, no Seminário Santo Antônio. Cursou o ginásio no Colégio Ateneu Teixeira Mendes, concluiu o Curso Clássico no Liceu Maranhense e iniciou seus estudos jurídicos na Faculdade de Direito de São Luís. Transferido para o Estado do Pará em razão das funções que exercia no Banco de Crédito da Amazônia S.A., concluiu a graduação na Faculdade de Direito de Belém do Pará.

Roque possuía um talento raro: reunir pessoas em torno de causas comuns. Poucos tiveram participação tão intensa na criação, organização e fortalecimento de entidades culturais, jurídicas e associativas. Sua presença era agregadora por natureza.

Também exerceu diversos cargos públicos, entre eles o de Secretário de Estado, sempre com a discrição de quem compreendia que a função pública não é espaço para vaidades, mas oportunidade de servir. Da passagem por esses cargos deixou como marcas permanentes a eficiência, a sobriedade e o compromisso com o interesse público.

Sua produção intelectual foi igualmente expressiva. Escreveu obras literárias em diferentes gêneros e deixou importantes contribuições ao pensamento jurídico.

Todavia, é em seu livro “Eu, Advogado” que talvez melhor se revele sua dimensão humana. Ali se encontra um amplo repositório de memórias, experiências, reflexões e episódios da vida profissional e pessoal, permitindo ao leitor conhecer não apenas o advogado, o homem público ou o escritor, mas sobretudo o ser humano.

E é exatamente por isso que me permito dizer que Roque não foi. Roque é. Há pessoas cuja existência não se encerra com a morte porque continuam presentes na memória, na obra construída, nas instituições que ajudaram a erguer e na influência que exerceram sobre inúmeras gerações.

Há aqueles que dizem adeus. Despedem-se e, pouco a pouco, desaparecem das lembranças, permanecendo apenas na intimidade dos seus.

Há, entretanto, aqueles que apenas partem.

Partem porque deixaram um legado. Porque continuam sendo lembrados sempre que uma instituição conta sua história, sempre que um livro é aberto, sempre que uma lembrança desperta a gratidão daqueles que tiveram a felicidade de conhecê-los.

Que o menino de Brejo — como a si mesmo se definiu em “Carta ao Pai” — siga em paz.

Nós, que permanecemos por mais algum tempo deste lado da existência, registramos nosso profundo pesar. Mas registramos, sobretudo, a honra de termos convivido com um homem cuja vida transformou sua partida em permanência.

Há pessoas que dizem adeus.

Outras apenas partem.

JUNTAR LETRAS

Ano 14 – vol. 07 – n. 87/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.21560525

Reunir e ajustar. 

Ou seria ajustar e reunir?

Imaginar e percorrer a pauta com grafite, esfera ou pena. 

Não importa. 

Datilografar

Digitar. 

Ditar; enfim, escrever. 

De relatos dos retalhos. 

Dos insultos ao perdão. 

Da alegria à dor. 

Não importa. 

Sempre o papel sem alma encontra significado a receber, passivamente, o talento do escritor. 

Há que se ponderar, contudo, que os tempos que tais melhor seria ficar no ponto paragrafo. 

Há os insensatos que imaginam que o infinitivo do verbo foi feito para rimar, sem perceber a pobreza do verso. 

Mas há os que primam pela elegância singela, sem a petulância arrogante. 

De tudo há. 

Há até o analfabeto que insiste em emoldurar em vocabulário chulo a tibieza torpe da negligência. 

Bem sei que os tempos não são os melhores mas, ainda assim, pior seria se não existisse o alfabeto para moldar em letras o que é visível e invisível, traduzindo-se pela inventividade capaz. 

Pobre ou rica, mas não vulgar, que seja o dia não mera lembrança mas a certeza de que sem escrever a vida se apaga como a vela, como se faltasse luz à humanidade. 

Ainda que uns insistam em desafiar a lógica, a ciência e o bom senso, mesmo assim, é porque existem escritores que os que leem podem discernir o que de fruto há e separar o que seja trigo do que seja joio. 

Feliz dia do escritor. 

O ÚLTIMO ENCONTRO

Ano 14 – vol. 06 – n. 81/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.21015468

Hoje retornei ao Apeadouro. Retornei à avenida João Pessoa, 58. 

Atravessei o terraço. Entrei como se fosse um anônimo. 

Baniva não latiu. Não vi seus saltos abanando o rabo e nem pude acariciar sua cabeça para que se acalmasse.

Olhei em volta, as cadeiras preguiçosas, estavam paradas. 

Vi a cristaleira com as louças de pavões. Fui à biblioteca e percebi que a máquina Olivetti estava ainda com uma folha de papel amarelada pelo tempo. Nada escrito, ao menos que pudesse ser lido. 

Por um instante o que achei de contraditório – um papel amarelado e sem um texto – logo se explicou. Ali havia uma história que foi contada. Apenas a narrativa era aparentemente invisível, porque tratava do tempo, essa criança teimosa e indomável.

Mas tudo foi um sonho. Aquele universo de memórias e lembranças irremediavelmente é uma impressão digital que nos acompanhará para sempre. 

Despertei com a notícia de tua partida. Tua teimosa partida.

Não pude deixar de lembrar nosso encontro na missa de sétimo dia de nosso irmão mais novo, após o padre mencionar meu nome, em lugar do morto:

  • Eu disse: Meu irmão, agora só eu e você.

Com a irreverência de sempre logo me respondeste:

  • E daqui a um tempo só eu!

Rimos, porque nossa compreensão e cumplicidade estavam mais nas afinidades e menos nos encontros, embora todos eles nos fizessem renovar a promessa a papai de que seriamos unidos.

E agora partes como quem tenha sucumbido à saudade, precipitando minha orfandade plena. Daquela casa agora só eu.

Lembro nosso último encontro.

Embora limitado pela circunstâncias a lembrança jamais se apagará. Não julguei que fosse o último, embora quisesse me enganar como quem luta contra as circunstâncias.

Aprendemos muito um com o outro. Talvez eu até mais do que você, embora minha admiração, nem sempre expressada pela correção de rumos que eu havia de impor a vocês, como quem lembrasse nossas promessas, jamais impediram que uma profunda admiração fosse nutrida.

Da memória afetiva, além de tudo o quanto vivemos e fomos, tenho em minha casa, eternizados nas paredes, os trabalhos que teu talento de artista produziram – o neto do professor Pavão.

Do médico ficam os conselhos que, como paciente, resistias a obedecer:

  • É pra fazer o que eu digo, não é pra fazer o que eu faço!

Mas também ficam as lembranças do profissional que não se deixou corromper pelas abordagens feitas no drama da pandemia:

– Meu irmão, não podia trair meu juramento, não podia trair meus pais. Como ficaria perante Deus?

Conscientemente descumpri sempre um de teus conselhos – o de médico.

Mesmo nas intempéries, mesmo diante das aflições, jamais deixei de te amar.

Segue em paz, meu irmão. Que nossos pais e irmãos te recebam e que vocês, agora, se tornem uma constelação.

Mas para que eu te tenha eternamente na lembrança com o bom humor de sempre, agora eu te digo:

  • Tem tempo.!

Até um dia.

A SOBRA DO QUE SOMOS

Ano 14 – vol. 06 – n. 78/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20786372

Bom dia. 

Uma figurinha

Um vídeo 

Bom dia. Bom dia. 

Um aviso de desaparecimento de um animal. 

Bom dia.

Um santinho com pedido de oração. 

Bom dia. Bom dia. Confrades, confreiras, colegas. 

Bom dia. 

Feliz aniversário. 

Bom dia. 

Meus pêsames. 

Bom dia. 

Não sei bem onde nos perdemos ou nos achamos. Mas a realidade é outra. 

As flores chegam sem perfume. 

Ou há imersão no imaginário ou não se terá sentido o afeto que não seja na vaga lembrança de abraços. 

De cumprimentos em cumprimentos formamos um comprimento que vai para a memória do aparelho. 

Há os que nem nem memória mais têm – só uma vaga lembrança!

Falo dos aparelhos. Não me refiro ao Alzheime ou demência ou esquecimentos ou fingimentos nossos de cada dia. 

Falo da realidade. Viva. Atual. Presente. 

Fomos ou somos? 

É o que me pergunto porque ainda transpiramos desejos de abraços. Sorrisos sem disfarces. Beijos sem cadarços. 

Somos o que sobrou de cada um de nós em um tempo quase sem voz. 

As Olivettis se foram. 

Os teclados reinam e nós, teimosos pelo tempo, só queremos ser sobra sem jamais ser restos.

Somos porque fomos. Fomos porque somos. 

Que sejamos, então, e sigamos dando bons dias porque se já não há mais praças e bancos livres para os encontros, que nos façamos imersos no universo virtual. 

Mas que jamais se misturem os conceitos porque virtual é só a via. Verdadeira é a vida. 

Verdadeiro é o dia. 

Bom dia.