ENTRE LINÓTIPOS E MEMÓRIAS: CEM ANOS DE O IMPARCIAL

Ano 14 – vol. 05 – n. 57/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19951201

Hoje é um dia especial de lembranças em minha vida — e ele começa na Rua Afonso Pena.

Ali, menino de calças curtas, meu pai me levava em alguns sábados. Foi ali que ganhei minhas primeiras “barrinhas de chumbo com letrinhas”, que eu transformava em carimbos improvisados, como se já ensaiasse, sem saber, o ofício da palavra impressa.

Foi ali que perturbei seu Gojoba e onde aprendi que o linótipo não era apenas uma máquina: era uma imposição mágica sobre o papel, feita de ferro, ruído e encantamento.

Ali também frequentei exposições de arte do professor e pintor — na verdade, bem mais do que isso — Newton Pavão, meu avô materno.

E ali conheci pessoas que, entre cafés e cigarros, discutiam política local e nacional com a naturalidade de quem respirava o mundo. Enquanto isso, eu me sentava diante das máquinas para brincar de jornalista. Talvez venha daí essa inclinação para a escrita: um mundo infantil cercado de gente grande.

Durante trinta e dois anos, ali esteve meu pai — José Vera-Cruz Santana —, editorialista elegante e fiel à linha editorial do condomínio Diários Associados.

Foram muitas as histórias que vi e vivi. Mas guardo, com especial nitidez, a advertência feita por ele a um jovem iniciante, ao comentar um texto:

“Quando quiser ter opinião própria sobre um fato desses, monte o seu próprio jornal. Este jornal tem linha editorial. Nunca esqueça disso.”

A lição ficou.

Anos depois, também escrevi para o mesmo jornal. Publicar não era simples, mas, ao enviar meus textos, repetia comigo mesmo o ensinamento:

“Veja se não vai de encontro à linha editorial.”

Hoje, confesso, já não sei qual seja essa linha. A imprensa brasileira, em muitos casos, transmutou-se em militância, onde fatos são moldados como versões — e versões, por vezes, pretendem se impor como fatos.

Talvez por isso, ao criar meu blog A Pena do Pavão, sob o lema A Opinião como Direito, há 14 anos em circulação, poucos tenham sido os textos remetidos aos jornais de São Luís.

Mas nesta data — carregada de significados pessoais — não poderia deixar de prestar minha homenagem ao Jornal O Imparcial, em seu centenário.

Foi ali que memórias foram forjadas. Foi ali que me alimentei — de comida e de palavra. E foi ali que tive, em meu pai — sem a modéstia que o maranhense costuma invocar — um verdadeiro exemplar de jornalista, daqueles que traduzem, com dignidade, o papel de um jornal.

Parabéns por continuar existindo.

Que os fatos sejam a causa da verdade — e não apenas a versão dela.

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