ETERNO E PERPÉTUO

Ano 14 – vol. 05 – n. 61/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.20110961

Sintomas e sentimentos neste dia.

Que mistura esses sentimentos em mim!

Me abraça, me abafa, me acalenta, me faz sorriria e chorar, sem dissipar as misturas, conquanto delas depuradas todas as amarguras.

Nesse misto de alegria e saudade continua a vibrante memória de nos vermos todos reunidos ao teu redor para celebrar o que imaginávamos então ser eterno.

Só hoje – e não precisamente nesta data – percebo que entre eterno e perpétuo há um continente de significados e “significâncias”, permitindo-me em tumultuado cenário, destemperado da razão, com paladar ácido de paixões banais e baratas, compreender que por mais que seja eterno enquanto dure, como proclamou o poeta, perpétuo é esse sentimento que só invade as mães.

Não são pessoas que gestam. São mulheres que concebem e parem dando ao mundo a prova do milagre.

Se do natural duvidam os que contra ela se lançam é porque até na natureza deformidades há.

Não culpem a mãe. Há escolhas.

Assim, que seja eterna a lembrança, mas perpétuo o significado natural irretocável e imodificável de que só do útero se pode falar, inda que dele não nasça o fruto que bem pode vir do coração.

Mãe, és eterna mas também perpétua em mim porque carrego significados que foram teus, são meus, serão dos meus filhos e daí para adiante.

Que a eternidade te proteja, MÃE, para perpetuidade da própria existência do SER.

A TOGA NÃO TEM COR

Ano 14 – vol. 04 – n. 60/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20068579

“A rua é larga. A estrada é longa, muito acidentada e muito difícil de percorrer. Mas eu sei que você a percorrerá honrosamente, de cabeça erguida, até o fim, rumo ao mais elevado aprendizado”.

Conta o juiz Frank Caprio – COMPASSION IN THE COURT, BenBella Books, Inc. Dallas, TX, 2025 – que um dia pediu a seu pai que escrevesse algumas linhas em seu caderno escolar. Não era ainda o tempo da despedida colegial, dos anuários e das fotografias que tentam aprisionar o tempo. Era apenas um menino querendo ouvir de seu pai uma palavra sobre si.

Duvidava que aquele homem simples, consumido pelo trabalho duro, encontrasse tempo ou delicadeza para tanto. Mas encontrou. E deixou registrado não apenas um elogio ao filho, mas uma lição sobre a própria vida.

A rua é larga. A estrada é longa.

E nela caminham muitos.

Mas poucos compreendem que passar pela vida não basta. É preciso deixar marcas que mereçam ser lembradas sem vergonha.

Lembrei-me disso ao ouvir a declaração de um ministro de tribunal superior brasileiro afirmando: “Nós, vermelhos, temos causa; não temos interesse”.

Parei.

Voltei o vídeo.

Ouvi novamente.

E então compreendi que há frases que, quando pronunciadas por certas autoridades, deixam de ser simples opiniões e passam a funcionar como sintomas institucionais.

Não se tratava de um militante partidário em mesa de bar. Não era um debatedor de rede social. Tampouco um comentarista político em busca de aplausos fáceis. A declaração partia de um magistrado investido na função de julgar conflitos da República.

Eis o ponto grave.

Juiz não pode ter coloração ideológica.

Nem vermelha.

Nem azul.

Nem arco-íris.

No Brasil já se falou, inclusive, em “jurisprudência arco-íris” para designar entendimentos voltados ao enfrentamento de demandas relacionadas à pauta LGBT. A expressão pode até soar simpática aos entusiastas da criatividade hermenêutica, mas revela um perigo silencioso: a transformação do Direito em extensão emocional das preferências do intérprete.

A toga não foi concebida para representar bandeiras.

Foi concebida para ocultá-las.

O juiz não recebe legitimidade para exercer vontades pessoais, mas para aplicar a ordem jurídica segundo os limites objetivos impostos pela Constituição da República.

Interpretação constitucional não é exercício de subjetivismo ornamental.

Não é licença poética.

Não é militância sofisticada.

Interpretar e aplicar o Direito é ato de conhecimento, não manifestação de preferência pessoal. O magistrado movimenta-se dentro da moldura normativa construída pela Constituição e pelas leis. Fora disso, abandona o Direito para ingressar na política, convertendo o tribunal em palanque e a sentença em manifesto ideológico.

A única causa legítima de um juiz é a Constituição.

Fora dela, ainda que vestido de toga, corre o risco de transformar-se em simples agente político travestido de julgador.

Platão afirmava que a justiça era a virtude universal e suprema. Aristóteles via nela a virtude completa, reservando à injustiça o espaço da deformidade moral. Mais tarde, Ulpiano, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino continuariam a busca pelo fundamento ético da justiça, associando-a à prudência, ao equilíbrio e à razão.

Mesmo quando o racionalismo moderno rompeu com parte da fundamentação sacralizada do poder, o juiz continuou sendo concebido como alguém submetido à lei — e não acima dela.

O drama contemporâneo começa justamente quando o intérprete decide substituir a norma por si mesmo.

Quando a Constituição deixa de ser limite e passa a ser mero pretexto retórico.

Quando o magistrado não mais pergunta “o que diz o Direito?”, mas “o que deseja minha consciência política?”.

É aí que o leme do navio institucional começa a apontar para o iceberg.

O Brasil parece hoje um Titanic jurídico conduzido por mãos que confundem protagonismo com legitimidade. E o problema dos naufrágios institucionais é que não há salva-vidas para todos.

A República não precisa de juízes vermelhos.

Nem de juízes azuis.

Precisa de juízes sem coloração.

Porque a Justiça, quando ganha cor ideológica, deixa de enxergar igualmente os homens.

PILILI E A ILUSÃO DA SIMPATIA

Ano 14 – vol. 05 – n. 59/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20053260

Há momentos em que a realidade institucional parece pedir um pouco de humor. E o humor, quando bem colocado, serve até como antídoto contra o desalento. O problema começa quando o humor deixa de ser espontâneo e passa a ser estratégia.

O Tribunal Superior Eleitoral resolveu apresentar ao público um mascote: uma simpática urna eletrônica, batizada com o nome — não menos curioso — de Pilili.

O nome é uma onomatopeia inspirada no ruído que faz a urna após o eleitor concluir as etapas do processo de votação. A ideia, ao que tudo indica, é aproximar o eleitor, suavizar a imagem institucional, tornar o processo eleitoral mais leve, mais “amigável”.

É compreensível. Em tempos de desconfiança difusa, qualquer gesto que pretenda reconstruir pontes merece, ao menos, ser observado. Mas há um detalhe que nem o mais carismático dos mascotes consegue esconder: confiança institucional não se fabrica com pelúcia simbólica.

Não há caricatura capaz de substituir coerência.
Não há slogan capaz de compensar excesso.
E, definitivamente, não há mascote que resista ao desgaste produzido por decisões que, aos olhos de muitos, extrapolam os limites da própria Constituição.

Pilili, com sua aparência inofensiva, parece nos convidar a um universo onde tudo funciona com leveza infantil. Mas o Direito Constitucional não é um parque temático. Ele é, antes de tudo, um sistema de contenção de poder. Quando esse sistema falha — ou parece falhar — não é com figuras lúdicas que se recompõe sua autoridade.

A simbologia institucional tem força, é verdade. Bandeiras, hinos, ritos — tudo isso ajuda a construir pertencimento e respeito. Mas essa força é derivada, nunca originária. Ela depende da substância. Quando a substância se fragiliza, o símbolo vira ornamento. E, em certos casos, ornamento deslocado.

O Judiciário, especialmente quando investido da função de guardião da Constituição, não pode se dar ao luxo de parecer leve onde deveria ser firme, nem simpático onde deveria ser rigorosamente imparcial. A credibilidade não nasce da tentativa de ser querido, mas da capacidade de ser confiável.

E confiabilidade, no mundo jurídico, tem nome conhecido: previsibilidade, autocontenção e respeito às regras do jogo democrático.

Se essas bases são percebidas como frágeis, pouco importa se a urna sorri.

No fim das contas, Pilili pode até arrancar um sorriso — e talvez esse seja o seu maior mérito. Mas instituições não se sustentam por sorrisos. Sustentam-se por limites.

E limites, como bem se sabe, não se desenham com mascotes.

ENTRE LINÓTIPOS E MEMÓRIAS: CEM ANOS DE O IMPARCIAL

Ano 14 – vol. 05 – n. 57/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.19951201

Hoje é um dia especial de lembranças em minha vida — e ele começa na Rua Afonso Pena.

Ali, menino de calças curtas, meu pai me levava em alguns sábados. Foi ali que ganhei minhas primeiras “barrinhas de chumbo com letrinhas”, que eu transformava em carimbos improvisados, como se já ensaiasse, sem saber, o ofício da palavra impressa.

Foi ali que perturbei seu Gojoba e onde aprendi que o linótipo não era apenas uma máquina: era uma imposição mágica sobre o papel, feita de ferro, ruído e encantamento.

Ali também frequentei exposições de arte do professor e pintor — na verdade, bem mais do que isso — Newton Pavão, meu avô materno.

E ali conheci pessoas que, entre cafés e cigarros, discutiam política local e nacional com a naturalidade de quem respirava o mundo. Enquanto isso, eu me sentava diante das máquinas para brincar de jornalista. Talvez venha daí essa inclinação para a escrita: um mundo infantil cercado de gente grande.

Durante trinta e dois anos, ali esteve meu pai — José Vera-Cruz Santana —, editorialista elegante e fiel à linha editorial do condomínio Diários Associados.

Foram muitas as histórias que vi e vivi. Mas guardo, com especial nitidez, a advertência feita por ele a um jovem iniciante, ao comentar um texto:

“Quando quiser ter opinião própria sobre um fato desses, monte o seu próprio jornal. Este jornal tem linha editorial. Nunca esqueça disso.”

A lição ficou.

Anos depois, também escrevi para o mesmo jornal. Publicar não era simples, mas, ao enviar meus textos, repetia comigo mesmo o ensinamento:

“Veja se não vai de encontro à linha editorial.”

Hoje, confesso, já não sei qual seja essa linha. A imprensa brasileira, em muitos casos, transmutou-se em militância, onde fatos são moldados como versões — e versões, por vezes, pretendem se impor como fatos.

Talvez por isso, ao criar meu blog A Pena do Pavão, sob o lema A Opinião como Direito, há 14 anos em circulação, poucos tenham sido os textos remetidos aos jornais de São Luís.

Mas nesta data — carregada de significados pessoais — não poderia deixar de prestar minha homenagem ao Jornal O Imparcial, em seu centenário.

Foi ali que memórias foram forjadas. Foi ali que me alimentei — de comida e de palavra. E foi ali que tive, em meu pai — sem a modéstia que o maranhense costuma invocar — um verdadeiro exemplar de jornalista, daqueles que traduzem, com dignidade, o papel de um jornal.

Parabéns por continuar existindo.

Que os fatos sejam a causa da verdade — e não apenas a versão dela.

A REPÚBLICA DOS ENSAIOS: onde a política encena e o Direito assiste

Ano 14 – vol. 04 – n. 56/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.19923619

O Brasil assistiu, atônito, à recusa do nome indicado pelo presidente Lula para o Supremo Tribunal Federal.

Ignoro o que pensam aqueles que se submetem àquela liturgia institucional, mas uma constatação se impõe com nitidez: coerência tornou-se artigo de luxo.

Não há, contudo, motivo para celebrações apressadas. A rejeição não decorreu de um movimento articulado e estratégico da oposição. Tampouco se deve ao despertar súbito de um Senado envergonhado por sua inércia diante de reiterados pedidos de impeachment de ministros do STF, como se, num gesto tardio, buscasse recompor sua imagem perante a opinião pública. Nada disso.

O episódio revela algo bem mais prosaico — e, por isso mesmo, mais inquietante: a contrariedade do presidente do Senado, que nutria preferência por outro nome, precisamente o de seu antecessor no cargo.

A sabatina na Comissão de Constituição e Justiça tangenciou o constrangimento. Entre discursos inflamados, de cunho mais eleitoral que institucional, e apelos quase pessoais — como o de que o arguido não se esquecesse dos “amigos” ao assumir o cargo — consolidou-se uma impressão incômoda: a de que ministros do Supremo seriam tratados como prepostos, instrumentos de ocasião, aptos a servir a interesses e a hostilizar adversários, convertendo-se, em última análise, em reféns de um jogo político menor.

Mas o quadro não se esgota aí. Noticiou a jornalista Malu Gaspar que membros do próprio Supremo Tribunal Federal teriam atuado, nos bastidores, para inviabilizar a indicação. Se verdadeiro, o fato apenas reforça uma vocação histórica preocupante: a de um país em que a separação de Poderes subsiste mais como construção retórica do que como realidade efetiva. Nos livros, a teoria resiste incólume; na prática, dissolve-se no exercício cotidiano de funções que deveriam ser regidas por limites claros.

O episódio, assim, projeta a imagem de um governo que caminha para um desfecho melancólico, marcado por contradições e por um histórico que, longe de se dissipar, parece reiterar-se. Escândalos emergem com frequência inquietante, corroendo a já fragilizada confiança institucional.

Nas redes sociais, o espetáculo prossegue: celebrações efêmeras se misturam a lamentos, num coro dissonante que reflete a própria instabilidade do momento. E o que se pode esperar? Em um ambiente político marcado por reações e contrarreacções, não surpreenderá se venham retaliações. Na República em que a oração de São Francisco — “é dando que se recebe” — foi deslocada do plano espiritual para o pragmatismo político, a lógica da retribuição parece reger mais do que os princípios republicanos.

Não há, de minha parte, qualquer entusiasmo com a rejeição do nome indicado. Tampouco há espaço para indiferença. Resta a percepção — talvez amarga, mas persistente — de que certas máximas populares resistem ao tempo com desconcertante atualidade: quem se curva em demasia acaba por expor-se além do necessário.

O Senado, é verdade, prestou um serviço. Mas não por virtude. Virtude, aliás, não floresce onde emendas parlamentares operam como moeda de troca. O que houve foi, essencialmente, o choque de interesses contrariados, a fricção de ambições que, momentaneamente, se sobrepuseram ao script previamente ensaiado.

Ao fim, o que se viu não foi um gesto de grandeza institucional, mas a encenação de um enredo já conhecido — um teatro povoado por fanfarrões, fantoches e espertos, todos cumprindo seus papéis sob o aplauso incerto de uma plateia cada vez mais desconfiada.