Ano 14 – vol. 07 – n. 88/2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.21627214
Não exagero em afirmar que toda época cria suas palavras. Umas nascem quase sempre espontaneamente; outras, pela massificação maciça dos meios de comunicação. Algumas acabam revelando mais do que pretendem esconder.
Confesso que somente recentemente descobri uma curiosa expressão utilizada por parte da juventude: “farmar aura”.
A receita parece simples.
Basta produzir uma imagem impactante, repetir um gesto extravagante, posar diante de uma câmera ou participar de algum desafio suficientemente absurdo para conquistar admiração nas redes sociais.
Não importa o conteúdo. Importa parecer. Importa ser visto. Importa construir uma aura.
Assisti a alguns desses vídeos pelas redes sociais.
Jovens atiram-se ao chão sem qualquer motivo aparente. Permanecem imóveis como se fossem personagens de alguma encenação coletiva. Outros reproduzem gestos incompreensíveis, poses cuidadosamente ensaiadas ou desafios cuja única explicação plausível parece residir no desejo quase desesperado de conquistar alguns segundos de notoriedade.
À primeira vista, tudo isso pode parecer apenas mais uma moda efêmera da internet.
Talvez seja muito mais do que isso.
Talvez essa expressão revele, sem que seus próprios autores percebam, um dos maiores sintomas do nosso tempo.
A palavra não deixa de ser curiosa.
“Aura” designa aquilo que envolve uma pessoa, a impressão que ela transmite, a atmosfera que a cerca. É algo intangível. Vive da percepção alheia. Existe enquanto houver quem acredite nela.
Etimologicamente “Aura” vem do latim aura, significando sopro, brisa, atmosfera, aquilo que envolve alguém. É algo impalpável, efêmero, dependente da percepção alheia.
Já “áureo” deriva de aureous, ouro. Remete ao que possui valor intrínseco, permanência, excelência, dignidade.
Não depende da opinião do público. Seu valor existe por si mesmo.
É justamente essa diferença que parece estar sendo esquecida.
Vivemos numa época em que quase todos parecem empenhados em “farmar aura”.
Os jovens apenas tornaram visível aquilo que os adultos já vinham praticando há muito tempo.
Políticos constroem personagens.
Autoridades cultivam imagens cuidadosamente elaboradas.
Influenciadores transformam superficialidade em profissão.
Instituições investem mais energia na administração de sua reputação do que na preservação de sua legitimidade.
Discursos substituem resultados.
Narrativas ocupam o lugar da verdade.
O marketing passa a valer mais do que o mérito.
A aparência passa a valer mais do que a substância.
O Brasil parece ter iniciado uma silenciosa substituição de valores.
Deixamos de formar aquilo que é “áureo” para fabricar apenas aquilo que produz “aura”.
Aura depende da plateia.
Áureo depende do caráter.
Aura desaparece quando termina o espetáculo.
Áureo permanece mesmo quando ninguém está olhando.
Essa talvez seja a mais preocupante das inversões contemporâneas.
O Congresso Nacional, frequentemente absorvido por disputas circunstanciais e conveniências políticas, parece preocupar-se menos com a grandeza institucional e mais com a sobrevivência imediata.
As instituições permanentes do Estado, em diferentes momentos, preferem preservar sua imagem a enfrentar responsabilidades que delas se esperam.
Entidades da sociedade civil, antes reconhecidas pela firme defesa de princípios, por vezes transmitem a impressão de que selecionam causas conforme conveniências ideológicas ou corporativas – vide a OAB.
O Ministério Público e o Poder Judiciário, cuja legitimidade repousa sobre a imparcialidade, a legalidade e a autoridade moral, também convivem com crescente desconfiança sempre que a sociedade percebe seletividade, protagonismo excessivo ou aquilo que tenho denominado de “criativismo judicial”, quando a criatividade interpretativa parece ultrapassar os próprios limites do texto constitucional.
Até mesmo a imprensa, cuja maior riqueza sempre foi sua credibilidade, muitas vezes parece disputar espaço entre os protagonistas da política quando sua missão histórica sempre consistiu em fiscalizá-los.
Nada disso passa despercebido.
Os jovens observam.
Sempre observaram.
É no passado que recolho a compreensão do fenômeno que assistimos.
Aristóteles ensinava que as virtudes são adquiridas pelo hábito e pelo exemplo.
Tocqueville demonstrou que as democracias sobrevivem menos pela qualidade de suas leis do que pela solidez de seus costumes.
Hannah Arendt advertia que cada geração recebe dos adultos um mundo já organizado e aprende, antes de tudo, observando como ele funciona.
Não se pode exigir que uma juventude valorize o mérito quando a sociedade frequentemente premia a aparência.
Não se pode esperar que o caráter seja admirado quando a notoriedade tornou-se o principal critério de reconhecimento.
Quem aprende que parecer vale mais do que ser dificilmente investirá tempo em tornar-se melhor.
Buscará apenas parecer melhor.
É nesse momento que a lógica das redes sociais invade a própria República.
As instituições passam a disputar aplausos em vez de respeito.
A popularidade substitui a autoridade.
A narrativa ocupa o lugar da verdade.
O espetáculo derrota a responsabilidade.
Talvez seja esse o maior risco institucional do nosso tempo.
As instituições começam a sofrer um processo de “aurificação”.
Em vez de produzirem confiança, passam a produzir imagem.
Em vez de cultivarem legitimidade, administram reputações.
Em vez de fortalecerem virtudes, aperfeiçoam estratégias de comunicação.
Mas nenhuma civilização se sustenta indefinidamente sobre aparências.
Montesquieu ensinava que a liberdade somente floresce onde existe virtude republicana.
Konrad Hesse lembrava que a força normativa da Constituição depende da disposição concreta de realizá-la.
Pablo Lucas Verdú afirmava que toda Constituição necessita de um verdadeiro sentimento constitucional para permanecer viva.
Nenhuma dessas ideias se compatibiliza com uma sociedade que troca substância por performance.
O problema, portanto, nunca foi o jovem que se lança ao chão para “farmar aura”.
Ele apenas reproduz o mundo que encontrou.
O verdadeiro problema está nos adultos, nas lideranças e nas instituições que, ao longo dos anos, passaram a ensinar que parecer importante produz mais resultados do que efetivamente ser importante.
Talvez o maior desafio de nossa época não seja impedir que os jovens continuem “farmando aura”.
O verdadeiro desafio consiste em fazê-los voltar a admirar aquilo que é verdadeiramente “áureo”.
Quando uma sociedade passa a premiar a aparência em vez da virtude, o espetáculo em vez da competência, a narrativa em vez da verdade e o aplauso em vez do mérito, ela deixa de produzir cidadãos e passa a produzir personagens.
Personagens podem dominar as redes sociais por algum tempo, mas são as pessoas de caráter — e as instituições de caráter — que constroem civilizações.