A REPÚBLICA DOS PÁRIAS

Ano 14 – vol. 09 – n. 106/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.22962510

O Brasil, definitivamente, perante os olhos do mundo, é sinônimo de atraso civilizatório explícito.

Não há como negar. Nossas instituições, todas elas, não importa o Poder, são párias daquilo que um dia se sonhou como nação.

Não passamos de um país. Um território ocupado pela concorrência explícita entre o crime organizado e a desorganização institucional criminosa, noticiada cotidianamente pela mídia.

Viramos sinônimo daquelas republiquetas do século XX, com a demão de populismo reforçada pelo que já se tinha como desbotado no tempo.

As instituições, pelos homens que as integram, perderam a compostura. Ou a teriam tido algum dia, com as lideranças que temos?

Não creio em magias. Acredito nos processos democráticos de chegada ao poder. Mas não me furto aos delírios solitários de imaginar que, se estivéssemos em uma realidade responsável e de comprometimento cívico, faltaria lugar nas celas, ou pólvora, ou cordas para as execuções.

Não há horizontes. Há promiscuidade por onde se transite.

Cenários mesclados de corrupção, dinheiro, favores, corpos e copos. Simplesmente tudo, no Brasil, virou um grande prostíbulo de consciências e favores.

Dá para entender o desejo pérfido e renitente de querer controlar as redes sociais?

Pois é. Eles nos querem em coleiras informacionais para que, lambuzados em orgias, seduzam parte da mídia que se refestela de favores, animada por artistas de horrores e de almas vendidas.

Enoja. Dá nojo. Dá azia em sal de frutas, como costumo dizer, quando ouço as vozes desses algozes, carnes humanas de almas putrificadas.

Houve um tempo, e não muito atrás, em que se falava de coturnos e espadas, canhões e fuzis, como se fossem o grande mal, responsáveis pela deformidade e pelo atraso disto que se chama Brasil.

O tempo provou o contrário.

Todas as instituições que reclamavam autonomia administrativa e funcional revelaram-se incompetentes ou promíscuas. Os escândalos borbulham.

Já não há diferença entre quem segura a arma ou a caneta. Apenas o alvo certeiro é invariável: somos nós, os cidadãos comuns.

Somos párias. Verdadeiramente párias.

O NÁUFRAGO E A BOIA

Ano 14 – vol. 09 – n. 100/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.22675877

Daniel Defoe colocou Robinson Crusoé diante da solidão.

Depois do naufrágio, restaram-lhe a ilha, os destroços, o medo e uma necessidade elementar: sobreviver.

Crusoé não tinha uma República para governar. Não possuía tribunais, parlamentos, exércitos ou multidões sobre as quais pudesse exercer autoridade. Tinha apenas a própria existência e aquilo que sua inteligência conseguisse retirar dos restos do desastre.

Por isso reconstruiu.

Recolheu dos destroços tudo quanto pudesse ser útil. Organizou provisões. Fabricou instrumentos. Domesticou o ambiente hostil. Aprendeu a administrar a escassez.

O náufrago de Defoe queria viver.

Há, entretanto, uma espécie muito mais perigosa de náufrago.

É aquele que, percebendo que não conseguirá alcançar a praia, agarra-se desesperadamente à boia em que outros também tentam sobreviver.

No começo, todos acreditam que ele deseja apenas salvar-se.

Depois percebem que não.

Quando compreende que seu destino pode estar definitivamente comprometido, começa a apertar os braços, empurrar os outros, ocupar mais espaço, sacudir a boia.

Até que surge a terrível percepção:

se não puder salvar-se, talvez queira que ninguém se salve.

É sobre esse náufrago que escrevo.

O naufrágio

O poder produz uma ilusão semelhante àquela que o mar produz em quem perdeu a costa de vista.

Tudo parece infinito.

Enquanto as águas estão tranquilas, o ocupante do poder acredita controlar a embarcação. Distribui ordens, escolhe rotas, aponta adversários e imagina que o navio seguirá indefinidamente na direção determinada por sua vontade.

Mas navios também encontram tempestades.

E autoridades também naufragam.

Algumas naufragam pelos acontecimentos inevitáveis da política e da vida institucional.

Outras abrem os próprios rombos no casco.

Abusos sucessivos.

Desatenção aos compromissos constitucionais assumidos.

Extrapolação de competências.

Personalização das funções públicas.

Conflitos transformados em questões pessoais.

Destempero.

Arrogância.

A soma desses comportamentos pode produzir aquilo que nenhum poder consegue indefinidamente esconder: a perda progressiva de legitimidade.

A água começa a entrar.

Primeiro pelos porões.

Depois alcança o convés.

E chega um instante em que já não adianta ordenar ao mar que recue.

A boia não pertence ao náufrago.

É nesse momento que aparece a diferença fundamental entre Robinson Crusoé e o nosso náufrago.

Crusoé aproveitou os destroços para reconstruir a própria existência.

O náufrago institucional pode tentar transformar os destroços em armas contra os outros.

E existe uma diferença ainda maior.

Ele não está sozinho.

Há outras pessoas agarradas à mesma boia.

Essa boia chama-se Constituição.

Nela estão agarrados adversários e aliados, autoridades e cidadãos, ricos e pobres, governantes e governados.

A Constituição da República possui exatamente essa função: permitir que todos atravessemos as tempestades políticas sem que alguém possa decidir sozinho quem continuará flutuando.

Por isso a boia não pertence a quem momentaneamente ocupa determinada posição nela.

Pertence a todos.

Quem exerce poder constitucional apenas ocupa, por algum tempo, determinado espaço institucional.

Não recebeu a propriedade da boia.

Muito menos o direito de furá-la.

Quando o medo substitui a razão.

O problema se torna gravíssimo quando o náufrago percebe que está perdendo forças.

Enquanto acredita que poderá alcançar a praia, coopera.

Enquanto imagina possuir futuro, calcula consequências.

Enquanto acredita na permanência, preserva aquilo de que ainda necessitará amanhã.

Mas o comportamento pode mudar quando surge a convicção de que o amanhã talvez já não lhe pertença.

É então que o instinto de preservação pode degenerar em instinto de destruição.

O companheiro de boia transforma-se em ameaça.

Quem pede equilíbrio passa a ser inimigo.

Quem aponta o perigo passa a ser conspirador.

Quem exige respeito às regras passa a ser tratado como responsável pelo naufrágio.

E o náufrago começa a debater-se.

Quanto mais se debate, mais água engole.

Quanto mais água engole, mais desesperadamente se debate.

Quanto mais se desespera, maior o risco para todos aqueles que estão agarrados à mesma boia.

O destempero de quem possui poder.

Um homem destemperado numa ilha pode destruir a si mesmo.

Um homem destemperado investido de enorme poder pode comprometer uma nação.

Essa diferença deveria preocupar qualquer sociedade constitucionalmente organizada.

Não se exige que autoridades sejam criaturas desprovidas de emoções. Exige-se algo muito mais simples: que seus sentimentos pessoais jamais se convertam em critérios para o exercício das competências públicas.

Rancor não é competência.

Medo não é jurisdição.

Vaidade não constitui fundamento jurídico.

Irritação não altera a Constituição.

Vingança não integra as atribuições de nenhum Poder da República.

Quanto maior o poder, maior deve ser o domínio sobre as próprias paixões.

Porque a caneta de uma autoridade não registra apenas seu estado de espírito.

Pode alterar a vida dos outros.

O náufrago começa a puxar os outros.

Eis o ponto mais perigoso.

Aquele que percebe a possibilidade de perder o cargo pode passar a enxergar a própria queda como catástrofe institucional.

Surge então a confusão entre pessoa e instituição.

“Se me atacam, atacam a instituição.”

“Se me investigam, investigam a instituição.”

“Se me responsabilizam, enfraquecem a instituição.”

“Se eu cair, a instituição cairá comigo.”

Não.

A instituição existia antes.

E deverá existir depois.

A República não cabe dentro de uma pessoa.

O Estado não possui sobrenome.

A Constituição não tem proprietário.

É precisamente quando alguém passa a acreditar que sua permanência se tornou indispensável à sobrevivência das instituições que os mecanismos constitucionais de controle se tornam ainda mais necessários.

Porque o náufrago já não está tentando apenas permanecer na boia.

Começa a puxar os outros para baixo.

Não é preciso afundar com ele.

Há uma estranha solidariedade que algumas sociedades desenvolvem em relação ao poder.

Quando percebem que determinada autoridade está em dificuldades, aqueles que dela dependem começam a argumentar que qualquer tentativa de responsabilização produzirá uma crise ainda maior.

É o medo da retirada do náufrago.

“Não mexam nele.”

“A boia pode virar.”

“Esperemos a tempestade passar.”

“Não é o momento.”

Mas talvez seja precisamente o contrário.

Talvez a boia esteja em perigo justamente porque alguém não para de sacudi-la.

As instituições não foram concebidas para proteger indefinidamente seus ocupantes.

Foram concebidas para proteger a ordem constitucional inclusive contra seus ocupantes.

Freios e contrapesos não são ornamentos acadêmicos.

Responsabilidade não é vingança.

Fiscalização não é perseguição.

Limitação do poder não é golpe.

Tudo isso integra a engenharia elementar de uma República que pretende sobreviver aos homens que temporariamente a governam, legislam, julgam ou administram.

Robinson construiu.

É aqui que retorno a Defoe.

Robinson Crusoé poderia ter se entregue ao desespero.

Não o fez.

Contou provisões.

Construiu abrigo.

Organizou o tempo.

Aprendeu com a adversidade.

Transformou os restos do naufrágio em instrumentos de sobrevivência.

Há uma extraordinária diferença moral entre aquele que utiliza os destroços para construir e aquele que os utiliza para ferir os demais náufragos.

Um deseja sobreviver.

O outro deseja não morrer sozinho.

A civilização política começa exatamente quando somos capazes de distinguir essas duas figuras.

Salvar a boia.

Nenhuma República deveria depender do equilíbrio emocional de um único homem.

Nenhuma instituição deveria ficar à mercê do desespero de quem percebe aproximar-se o fim de seu poder.

Nenhum cargo deveria fornecer instrumentos capazes de permitir que seu ocupante, acuado pelas consequências dos próprios atos, transformasse sua agonia pessoal em risco coletivo.

A Constituição existe também para impedir isso.

Ela é a boia.

Não salva apenas aqueles de quem gostamos.

Não pertence apenas aos nossos aliados.

Não pode ser apertada contra o peito por quem momentaneamente se julga seu proprietário.

Muito menos pode ser perfurada porque alguém concluiu que já não conseguirá chegar à praia.

Quando o náufrago perde a esperança, os demais precisam proteger a boia.

Não necessariamente contra o mar.

Às vezes, contra o próprio náufrago.

Porque tempestades passam.

Navios podem afundar.

Homens desaparecem.

Outros chegam.

Mas uma sociedade não pode aceitar que aquele que esteja irremediavelmente condenado ao naufrágio adquira o direito de transformar sua queda pessoal em naufrágio coletivo.

Robinson Crusoé sobreviveu porque, diante dos destroços, decidiu construir.

O verdadeiro perigo está naquele que, percebendo que talvez não sobreviva, olha para os que ainda flutuam e decide que não chegará sozinho ao fundo.

A questão, portanto, já não é salvar o náufrago.

É salvar a boia.

A AURIFICAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES

Ano 14 – vol. 07 – n. 88/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.21627214

Não exagero em afirmar que toda época cria suas palavras. Umas nascem quase sempre espontaneamente; outras, pela massificação maciça dos meios de comunicação. Algumas acabam revelando mais do que pretendem esconder.

Confesso que somente recentemente descobri uma curiosa expressão utilizada por parte da juventude: “farmar aura”.

A receita parece simples.

Basta produzir uma imagem impactante, repetir um gesto extravagante, posar diante de uma câmera ou participar de algum desafio suficientemente absurdo para conquistar admiração nas redes sociais.

Não importa o conteúdo. Importa parecer. Importa ser visto. Importa construir uma aura.

Assisti a alguns desses vídeos pelas redes sociais.

Jovens atiram-se ao chão sem qualquer motivo aparente. Permanecem imóveis como se fossem personagens de alguma encenação coletiva. Outros reproduzem gestos incompreensíveis, poses cuidadosamente ensaiadas ou desafios cuja única explicação plausível parece residir no desejo quase desesperado de conquistar alguns segundos de notoriedade.

À primeira vista, tudo isso pode parecer apenas mais uma moda efêmera da internet.

Talvez seja muito mais do que isso.

Talvez essa expressão revele, sem que seus próprios autores percebam, um dos maiores sintomas do nosso tempo.

A palavra não deixa de ser curiosa.

“Aura” designa aquilo que envolve uma pessoa, a impressão que ela transmite, a atmosfera que a cerca. É algo intangível. Vive da percepção alheia. Existe enquanto houver quem acredite nela.

Etimologicamente “Aura” vem do latim aura, significando sopro, brisa, atmosfera, aquilo que envolve alguém. É algo impalpável, efêmero, dependente da percepção alheia.

Já “áureo” deriva de aureous, ouro. Remete ao que possui valor intrínseco, permanência, excelência, dignidade.

Não depende da opinião do público. Seu valor existe por si mesmo.

É justamente essa diferença que parece estar sendo esquecida.

Vivemos numa época em que quase todos parecem empenhados em “farmar aura”.

Os jovens apenas tornaram visível aquilo que os adultos já vinham praticando há muito tempo.

Políticos constroem personagens.

Autoridades cultivam imagens cuidadosamente elaboradas.

Influenciadores transformam superficialidade em profissão.

Instituições investem mais energia na administração de sua reputação do que na preservação de sua legitimidade.

Discursos substituem resultados.

Narrativas ocupam o lugar da verdade.

O marketing passa a valer mais do que o mérito.

A aparência passa a valer mais do que a substância.

O Brasil parece ter iniciado uma silenciosa substituição de valores.

Deixamos de formar aquilo que é “áureo” para fabricar apenas aquilo que produz “aura”.

Aura depende da plateia.

Áureo depende do caráter.

Aura desaparece quando termina o espetáculo.

Áureo permanece mesmo quando ninguém está olhando.

Essa talvez seja a mais preocupante das inversões contemporâneas.

O Congresso Nacional, frequentemente absorvido por disputas circunstanciais e conveniências políticas, parece preocupar-se menos com a grandeza institucional e mais com a sobrevivência imediata.

As instituições permanentes do Estado, em diferentes momentos, preferem preservar sua imagem a enfrentar responsabilidades que delas se esperam.

Entidades da sociedade civil, antes reconhecidas pela firme defesa de princípios, por vezes transmitem a impressão de que selecionam causas conforme conveniências ideológicas ou corporativas – vide a OAB.

O Ministério Público e o Poder Judiciário, cuja legitimidade repousa sobre a imparcialidade, a legalidade e a autoridade moral, também convivem com crescente desconfiança sempre que a sociedade percebe seletividade, protagonismo excessivo ou aquilo que tenho denominado de “criativismo judicial”, quando a criatividade interpretativa parece ultrapassar os próprios limites do texto constitucional.

Até mesmo a imprensa, cuja maior riqueza sempre foi sua credibilidade, muitas vezes parece disputar espaço entre os protagonistas da política quando sua missão histórica sempre consistiu em fiscalizá-los.

Nada disso passa despercebido.

Os jovens observam.

Sempre observaram.

É no passado que recolho a compreensão do fenômeno que assistimos.

Aristóteles ensinava que as virtudes são adquiridas pelo hábito e pelo exemplo. 

Tocqueville demonstrou que as democracias sobrevivem menos pela qualidade de suas leis do que pela solidez de seus costumes. 

Hannah Arendt advertia que cada geração recebe dos adultos um mundo já organizado e aprende, antes de tudo, observando como ele funciona.

Não se pode exigir que uma juventude valorize o mérito quando a sociedade frequentemente premia a aparência.

Não se pode esperar que o caráter seja admirado quando a notoriedade tornou-se o principal critério de reconhecimento.

Quem aprende que parecer vale mais do que ser dificilmente investirá tempo em tornar-se melhor.

Buscará apenas parecer melhor.

É nesse momento que a lógica das redes sociais invade a própria República.

As instituições passam a disputar aplausos em vez de respeito.

A popularidade substitui a autoridade.

A narrativa ocupa o lugar da verdade.

O espetáculo derrota a responsabilidade.

Talvez seja esse o maior risco institucional do nosso tempo.

As instituições começam a sofrer um processo de “aurificação”.

Em vez de produzirem confiança, passam a produzir imagem.

Em vez de cultivarem legitimidade, administram reputações.

Em vez de fortalecerem virtudes, aperfeiçoam estratégias de comunicação.

Mas nenhuma civilização se sustenta indefinidamente sobre aparências.

Montesquieu ensinava que a liberdade somente floresce onde existe virtude republicana. 

Konrad Hesse lembrava que a força normativa da Constituição depende da disposição concreta de realizá-la. 

Pablo Lucas Verdú afirmava que toda Constituição necessita de um verdadeiro sentimento constitucional para permanecer viva.

Nenhuma dessas ideias se compatibiliza com uma sociedade que troca substância por performance.

O problema, portanto, nunca foi o jovem que se lança ao chão para “farmar aura”.

Ele apenas reproduz o mundo que encontrou.

O verdadeiro problema está nos adultos, nas lideranças e nas instituições que, ao longo dos anos, passaram a ensinar que parecer importante produz mais resultados do que efetivamente ser importante.

Talvez o maior desafio de nossa época não seja impedir que os jovens continuem “farmando aura”.

O verdadeiro desafio consiste em fazê-los voltar a admirar aquilo que é verdadeiramente “áureo”.

Quando uma sociedade passa a premiar a aparência em vez da virtude, o espetáculo em vez da competência, a narrativa em vez da verdade e o aplauso em vez do mérito, ela deixa de produzir cidadãos e passa a produzir personagens. 

Personagens podem dominar as redes sociais por algum tempo, mas são  as pessoas de caráter — e as instituições de caráter — que constroem civilizações.