Ano 14 – vol. 09 – n. 100/2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.22675877
Daniel Defoe colocou Robinson Crusoé diante da solidão.
Depois do naufrágio, restaram-lhe a ilha, os destroços, o medo e uma necessidade elementar: sobreviver.
Crusoé não tinha uma República para governar. Não possuía tribunais, parlamentos, exércitos ou multidões sobre as quais pudesse exercer autoridade. Tinha apenas a própria existência e aquilo que sua inteligência conseguisse retirar dos restos do desastre.
Por isso reconstruiu.
Recolheu dos destroços tudo quanto pudesse ser útil. Organizou provisões. Fabricou instrumentos. Domesticou o ambiente hostil. Aprendeu a administrar a escassez.
O náufrago de Defoe queria viver.
Há, entretanto, uma espécie muito mais perigosa de náufrago.
É aquele que, percebendo que não conseguirá alcançar a praia, agarra-se desesperadamente à boia em que outros também tentam sobreviver.
No começo, todos acreditam que ele deseja apenas salvar-se.
Depois percebem que não.
Quando compreende que seu destino pode estar definitivamente comprometido, começa a apertar os braços, empurrar os outros, ocupar mais espaço, sacudir a boia.
Até que surge a terrível percepção:
se não puder salvar-se, talvez queira que ninguém se salve.
É sobre esse náufrago que escrevo.
O naufrágio
O poder produz uma ilusão semelhante àquela que o mar produz em quem perdeu a costa de vista.
Tudo parece infinito.
Enquanto as águas estão tranquilas, o ocupante do poder acredita controlar a embarcação. Distribui ordens, escolhe rotas, aponta adversários e imagina que o navio seguirá indefinidamente na direção determinada por sua vontade.
Mas navios também encontram tempestades.
E autoridades também naufragam.
Algumas naufragam pelos acontecimentos inevitáveis da política e da vida institucional.
Outras abrem os próprios rombos no casco.
Abusos sucessivos.
Desatenção aos compromissos constitucionais assumidos.
Extrapolação de competências.
Personalização das funções públicas.
Conflitos transformados em questões pessoais.
Destempero.
Arrogância.
A soma desses comportamentos pode produzir aquilo que nenhum poder consegue indefinidamente esconder: a perda progressiva de legitimidade.
A água começa a entrar.
Primeiro pelos porões.
Depois alcança o convés.
E chega um instante em que já não adianta ordenar ao mar que recue.
A boia não pertence ao náufrago.
É nesse momento que aparece a diferença fundamental entre Robinson Crusoé e o nosso náufrago.
Crusoé aproveitou os destroços para reconstruir a própria existência.
O náufrago institucional pode tentar transformar os destroços em armas contra os outros.
E existe uma diferença ainda maior.
Ele não está sozinho.
Há outras pessoas agarradas à mesma boia.
Essa boia chama-se Constituição.
Nela estão agarrados adversários e aliados, autoridades e cidadãos, ricos e pobres, governantes e governados.
A Constituição da República possui exatamente essa função: permitir que todos atravessemos as tempestades políticas sem que alguém possa decidir sozinho quem continuará flutuando.
Por isso a boia não pertence a quem momentaneamente ocupa determinada posição nela.
Pertence a todos.
Quem exerce poder constitucional apenas ocupa, por algum tempo, determinado espaço institucional.
Não recebeu a propriedade da boia.
Muito menos o direito de furá-la.
Quando o medo substitui a razão.
O problema se torna gravíssimo quando o náufrago percebe que está perdendo forças.
Enquanto acredita que poderá alcançar a praia, coopera.
Enquanto imagina possuir futuro, calcula consequências.
Enquanto acredita na permanência, preserva aquilo de que ainda necessitará amanhã.
Mas o comportamento pode mudar quando surge a convicção de que o amanhã talvez já não lhe pertença.
É então que o instinto de preservação pode degenerar em instinto de destruição.
O companheiro de boia transforma-se em ameaça.
Quem pede equilíbrio passa a ser inimigo.
Quem aponta o perigo passa a ser conspirador.
Quem exige respeito às regras passa a ser tratado como responsável pelo naufrágio.
E o náufrago começa a debater-se.
Quanto mais se debate, mais água engole.
Quanto mais água engole, mais desesperadamente se debate.
Quanto mais se desespera, maior o risco para todos aqueles que estão agarrados à mesma boia.
O destempero de quem possui poder.
Um homem destemperado numa ilha pode destruir a si mesmo.
Um homem destemperado investido de enorme poder pode comprometer uma nação.
Essa diferença deveria preocupar qualquer sociedade constitucionalmente organizada.
Não se exige que autoridades sejam criaturas desprovidas de emoções. Exige-se algo muito mais simples: que seus sentimentos pessoais jamais se convertam em critérios para o exercício das competências públicas.
Rancor não é competência.
Medo não é jurisdição.
Vaidade não constitui fundamento jurídico.
Irritação não altera a Constituição.
Vingança não integra as atribuições de nenhum Poder da República.
Quanto maior o poder, maior deve ser o domínio sobre as próprias paixões.
Porque a caneta de uma autoridade não registra apenas seu estado de espírito.
Pode alterar a vida dos outros.
O náufrago começa a puxar os outros.
Eis o ponto mais perigoso.
Aquele que percebe a possibilidade de perder o cargo pode passar a enxergar a própria queda como catástrofe institucional.
Surge então a confusão entre pessoa e instituição.
“Se me atacam, atacam a instituição.”
“Se me investigam, investigam a instituição.”
“Se me responsabilizam, enfraquecem a instituição.”
“Se eu cair, a instituição cairá comigo.”
Não.
A instituição existia antes.
E deverá existir depois.
A República não cabe dentro de uma pessoa.
O Estado não possui sobrenome.
A Constituição não tem proprietário.
É precisamente quando alguém passa a acreditar que sua permanência se tornou indispensável à sobrevivência das instituições que os mecanismos constitucionais de controle se tornam ainda mais necessários.
Porque o náufrago já não está tentando apenas permanecer na boia.
Começa a puxar os outros para baixo.
Não é preciso afundar com ele.
Há uma estranha solidariedade que algumas sociedades desenvolvem em relação ao poder.
Quando percebem que determinada autoridade está em dificuldades, aqueles que dela dependem começam a argumentar que qualquer tentativa de responsabilização produzirá uma crise ainda maior.
É o medo da retirada do náufrago.
“Não mexam nele.”
“A boia pode virar.”
“Esperemos a tempestade passar.”
“Não é o momento.”
Mas talvez seja precisamente o contrário.
Talvez a boia esteja em perigo justamente porque alguém não para de sacudi-la.
As instituições não foram concebidas para proteger indefinidamente seus ocupantes.
Foram concebidas para proteger a ordem constitucional inclusive contra seus ocupantes.
Freios e contrapesos não são ornamentos acadêmicos.
Responsabilidade não é vingança.
Fiscalização não é perseguição.
Limitação do poder não é golpe.
Tudo isso integra a engenharia elementar de uma República que pretende sobreviver aos homens que temporariamente a governam, legislam, julgam ou administram.
Robinson construiu.
É aqui que retorno a Defoe.
Robinson Crusoé poderia ter se entregue ao desespero.
Não o fez.
Contou provisões.
Construiu abrigo.
Organizou o tempo.
Aprendeu com a adversidade.
Transformou os restos do naufrágio em instrumentos de sobrevivência.
Há uma extraordinária diferença moral entre aquele que utiliza os destroços para construir e aquele que os utiliza para ferir os demais náufragos.
Um deseja sobreviver.
O outro deseja não morrer sozinho.
A civilização política começa exatamente quando somos capazes de distinguir essas duas figuras.
Salvar a boia.
Nenhuma República deveria depender do equilíbrio emocional de um único homem.
Nenhuma instituição deveria ficar à mercê do desespero de quem percebe aproximar-se o fim de seu poder.
Nenhum cargo deveria fornecer instrumentos capazes de permitir que seu ocupante, acuado pelas consequências dos próprios atos, transformasse sua agonia pessoal em risco coletivo.
A Constituição existe também para impedir isso.
Ela é a boia.
Não salva apenas aqueles de quem gostamos.
Não pertence apenas aos nossos aliados.
Não pode ser apertada contra o peito por quem momentaneamente se julga seu proprietário.
Muito menos pode ser perfurada porque alguém concluiu que já não conseguirá chegar à praia.
Quando o náufrago perde a esperança, os demais precisam proteger a boia.
Não necessariamente contra o mar.
Às vezes, contra o próprio náufrago.
Porque tempestades passam.
Navios podem afundar.
Homens desaparecem.
Outros chegam.
Mas uma sociedade não pode aceitar que aquele que esteja irremediavelmente condenado ao naufrágio adquira o direito de transformar sua queda pessoal em naufrágio coletivo.
Robinson Crusoé sobreviveu porque, diante dos destroços, decidiu construir.
O verdadeiro perigo está naquele que, percebendo que talvez não sobreviva, olha para os que ainda flutuam e decide que não chegará sozinho ao fundo.
A questão, portanto, já não é salvar o náufrago.
É salvar a boia.