ACUSAR E VITIMIZAR

Ano 13 – vol. 09 – n. 88/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.17200838

Não estarei eu exagerando ao afirmar que há um ciclo antiético e patológico na vida contemporânea com essa prática usual e reiterada que é acusar terceiros como forma de extravasar ressentimentos e, logo após, vitimizar-se. É uma nódoa na humanidade, porque assim caminham os fracos de espírito.

O quadro revela um comportamento de todo antiético, expondo fragilidades emocionais que podem estar relacionadas a idiossincrasias e até a patologias psíquicas.

Em O ego e o id Freud (rememorando sempre a estimada professora Maria Garcia) já identificava a projeção psíquica como sendo aquele estado em que o indivíduo transfere para outrem aquilo que não consegue reconhecer em si mesmo. Do ponto de vista ético, essa prática viola princípios básicos de convivência, pois substitui o diálogo e a responsabilidade pela transferência de culpa.

Particularmente eu diria que se trata da prática de uma acusação com gesto grosseiro, revelador da própria personalidade aflitiva, confusa e (muita vez) à beira da psicopatia aguda.

Feita a acusação, muitas dessas pessoas incorporam o papel de vítimas, recorrendo ao discurso de injustiça ou de sofrimento. Tentam, assim, com a construção de uma retórica própria de quem mascara a própria agressividade, transformar o agressor em suposto vulnerável.

Há, notoriamente, uma inversão construída que encobre a realidade de um sujeito que é incapaz de lidar com suas frustrações, recorrendo à autopiedade como forma de sobrevivência social.

Nesse quadro de repetição do ciclo de acusação não há apenas falha moral ou social. Muitas vezes, está associada a traços de personalidade narcisista ou a dificuldades de regulação emocional.

O inexcedível Kelsen, ainda que em outro campo (jurídico), já advertia sobre o perigo de se criar mecanismos que iludem a responsabilidade em favor de justificativas externas, observação que pode ser transposta para o plano psicológico: evitar a autocrítica e sempre responsabilizar o outro é negar a própria autenticidade.

É recomendado pela psicologia contemporânea o apoio terapêutico, seja por meio da psicanálise, da terapia cognitivo-comportamental ou de outras abordagens, a fim de auxiliar o indivíduo a reconhecer suas próprias limitações, desenvolver maior tolerância à frustração e construir mecanismos saudáveis de enfrentamento.

O ciclo acusação-vitimação é mais do que um problema ético; é um sintoma social e psicológico. Ele destrói a confiança entre pessoas, fragiliza relações de trabalho, familiares e sociais, além de aprisionar o sujeito em suas próprias defesas patológicas. Reconhecer esse padrão e buscar auxílio especializado é o caminho para quebrar o círculo vicioso, substituindo a acusação pelo diálogo e a vitimização pela responsabilidade.

Vivemos tempos assim, em que os pés são batidos como birra, as acusações são lançadas à esmo sem qualquer respeito às biografias, mas no fundo, no fundo, há nisso um conjunto de frustrações, provavelmente um passado nebuloso que, sem as medidas terapêuticas sugeridas, só aceleram o processo degenerativo psíquico e ético.

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