(DES) CONSTITUINDO

Ano 01 – vol. 11 – n. 15/2013

Atento ao noticiário (sou um daqueles que tem fissura por notícias) mais uma vez vejo o Presidente da Câmara dos Deputados afirmar que submeterá a comunicação feita pelo Supremo Tribunal Federal ao “plenário da casa”, jargão que já se aproxima de um outro bem popular: “a casa da mãe Joana”.

Ora, a Constituição da República atribui ao Supremo Tribunal Federal o “status” de guardião da Constituição, a ele sendo deferida a competência da interpretar a Norma Fundamental.

Pois bem, seja por inferência vocabular, seja por inferência hermenêutica, a decisão do Supremo Tribunal Federal no caso da Ação Penal 470 trouxe como consequência a perda do mandato político dos condenados, cabendo a comunicação ao Poder Legislativo (isso foi feito) e a simples formalização declaratória, já que a decisão desconstitutiva foi feita pela Corte Constitucional. Então, nada mais há a fazer senão declarar o que jurídicamente já está constituído, no caso o acórdão, ou desconsitutído, no caso, o mandato como consequência da condenação penal.

Vejo com preocupação essa postura dos “representantes do povo” que outra coisa não fazem senão retardar a necessidade de consolidação do sentimento constitucional, fator indispensável para a compreensão exata do que significa historicamente o Estado Democrático de Direito.

É fato que o Poder Legislativo não está submetido ao Poder Judiciário, posta a abordagem sob o prisma do fisiologismo. Contudo está, sim, vinculado a suas decisões judiciais, desde que não violem prerrogativas do parlamento. E no caso, certamente, a decisão do Supremo Tribunal Federal está tomada na esfera de  sua competência constitucional e funcional.

Certo é que a Assembleia Nacional Constituinte de 1988 estabeleceu como decisão política fundamental que a decisão em casos assim caberia ao Supremo Tribunal Federal que comunicaria ao órgão do Poder Legislativo a que pertença o parlamentar processado e condenado.

É inaceitável que os parlamentares no Brasil queiram se sentir imunes aos princípios constitucionais previstos no capítulo da Administração Pública (artigo 37) pois a Constituição os vincula a todos dos Poderes da República.

Sendo assim, é descabido, juridica, politca e logicamente a insistência do Presidente da Câmara dos Deputados em querer “emendar” a Constituição com uma interpretação que não possui espaço, em nome de uma circunstância partidária desfavorável.

Não há Constituição da Câmara, do Senado, do PT, do PSDB e dos demais partidos políticos. Há uma Constituição da República perante a qual o Presidente da Câmara dos Deputados está cometendo verdadeira violação, portanto, já sujeito a um processo de impedimento por não cumprir o que jurou.

O que está sendo feito é uma verdadeira desconstituição da decisão da Assembleia Nacional Constituinte. O triste disso, além de retardar a consolidação do sentimento constitucional, é a parcimônia e a conivência dos demais partidos políticos.

QUE PATRIMÔNIO, SE NÃO TEM HUMANIDADE POLÍTICA?

Ano 01 – vol. 11 – n. 14/2013

Sou nascido nesta cidade. Sou do tempo do bonde. Sou do tempo do cine Monte Castelo. Clube dos Sargentos. Sou do tempo do Casino, do Jaguarema, do Lítero. Portanto, sou bem mais antigo do que muita gente que eventualmente pode ler este desabafo.

Já vi praias limpas. Já vi gente se levantar nos coletivos para pessoas mais velhas. Ainda vejo, graças a Deus, meus filhos me pedirem a bênção e beijarem a minha mão direita. Mas já não vejo uma cidade. Já não vejo um estado que a agente sentia orgulho. Por onde ando vejo miséria, doença, fome, abandono.

É um tal de empurra pra lá, puxa pra cá, quando o assunto é assumir responsabilidades públicas.

O Maranhão, há quase cinquenta anos administrado pelo menos grupo político, ainda tolera, permite ou compactua, não sei ao certo, com um quadro desses. Lastimável! Revoltante!

A televisão mostra estradas, escolas, saúde, segurança, mas eu não vejo! Será que só eu não consigo enxergar isso?

Ontem, como sempre faço, fui comprar revistas e jornais no centro, e tomei um susto com o relato que ouvi. Uma única banca de revistas  e jornais não está à venda: a bando do “seu” João. Sim, ele, com quem troco novidades há cada domingo, por cerca de trinta anos.

Governadora, Prefeito, acordem! Todas as bancas estão à venda!

Como pode uma cidade Patrimônio Cultural da Humanidade passar por um quadro desses. Um centro abandonado, sem polícia, sem agente de trânsito. As pessoas sendo humilhadas, porque são idosas e não dão dinheiro aos marginais que a polícia conhece, porque conhece a cidade melhor do que ninguém, mas nada faz.

Será que teremos que mergulhar completamente no caos para que as autoridades acordem e tenham compromisso real com a cidade?

Soube que um dos proprietários de uma das bancas pôs um aviso que logo ganhou plural a cada quinze dias.

Primeiro pôs um aviso dizendo: vendo. Quinze dias depois, vendo ou troco por carro. Mais quinze dias e o aviso era, vendo ou troco por moto.

Será tão difícil ao governo do estado e do município construir bancas de venda de artesanato, postos de informação aos turistas, postos da polícia militar? Será possível que ninguém tem a mais singela ideia de revigorar esse centro, policia-lo e manter agentes de trânsito presentes na região?

Houve um tempo em que pessoas se importaram porque caiu parte de um prédio na Praça João Lisboa, ao lato do Moto Bar. Outrps se importaram porque o abrigo não poderia ser removido. Por que será que ninguém se comove com o fato de que a jogatina, o som automotivo de taxistas que bebem e jogam naquele local aos domingos, mesmo estando a serviço, o comércio de drogas, os furtos etc.?

Será que as autoridades, que governam, os intelectuais que pensam, nada farão além fazer propaganda política, crônicas decantando amores pela cidade e poesias concretas e abstratas nada dirão?!

Que patrimônio é esse que não conta com a humanidade dos políticos? Patrimônio? De quem, ser humano?!