Ano 09 – vol. 05 – n. 42/2021
Hoje completam 53 anos de um dos acontecimentos mais dolorosos que já tive oportunidade de viver em minha vida. A dor mais violenta até aquele momento, pois só bem mais tarde, pelo curso natural da vida, a dor de perder meus pais foi (e é) aquela que não sara nunca.
Há 53 anos atrás eu tive (aos 11 anos de idade) a incumbência de transmitir ao meu pai a dor que o matou a ele e a mamãe aos poucos: Papai, sofremos um acidente. Salva meu irmão!
É quase impossível revelar com exatidão o que ocorreu, mas sempre o 19 de maio as cenas me voltam à mente ao ver-me dentro de um veículo sobre o corpo de meu irmão mais velho, José Newton, a quem, em casa, o carinho nos fez apelidar de “Dil”.
Há colegas dele ainda hoje que melhor do que eu, do Colégio Batista ou no Colégio Marista, dele possam falar do quotidiano escolar. Eu só posso dizer da minha dor particular, das lembranças de infância, do sofrimento dos meus pais, da dor dos meus irmãos (éramos 4) da comoção que testemunhei em uma cidade ainda pequena como era a pacata São Luís.
A firme crença em Deus nos fez (a todos nós) encontrar resignação, embora a inconformação desnude nossas fraquezas, porque amamos, porque somos humanos, porque a saudade aperta sempre quando chega o dia 19 de maio.
A mim suaviza a lembrança a alegoria da rosa e do espinho: nela há beleza; nele há dor. Mas não seria rosa, se não houvesse espinhos, sem exalaria perfume, se não fosse rosa.
No instante em que relembro esta dor da saudade agradeço a Deus a segunda oportunidade de vida que recebi, pois todas as circunstâncias que envolveram o acidente conduziriam, por probabilidades físicas, a que eu tivesse perdido a vida. Mas o que são probabilidades diante de Deus? – nada! ELE dispõe de tudo.
Minha dor não é única, no instante em que tantas pessoas tiveram familiares (inclusive eu) perdidos por uma pandemia que acentuou um sentimento torpe no Brasil. Mas a dor é minha, e eu só tenho que agradecer a Deus ter tido o privilégio de me dar os irmãos que tenho e o irmão que tivemos, José Newton, nosso “Dil”, nossa rosa cujo perfume permanece no coração.