Ano 10 – vol.. 06 – n. 37/2022
Li nas redes sociais que a senadora Rose de Freitas (MDB-ES) apresentou proposta legislativa pela qual fica criminalizado o “olhar invasivo com conotação sexual”.
Não me detive em analisar a proposição, pois ela apenas agrega comportamento ao Decreto n. 2.848/1940 que considera crime o assédio sexual, mesmo que não físico, mas o constrangimento e posse de conteúdo sexual não autorizado.
Não tenho dúvidas de que há olhares inconvenientes e até excessivos que chegam a agredir, partindo tanto de homens quanto de mulheres nos dias de hoje. O que me move a falar sobre o assunto é a ocupação do parlamento.
Eu diria mesmo que deveria ser crime olhar insistentemente para pessoas feias. Vai que isso pega, né? Mas aí eu seria acusado de “bullyng” ou discriminação. Melhor baixar o olhar!
O que me intriga é um parlamentar se entregar a uma preocupação a tal nível que chega às raias da patetice. Olhar, mas não ver, porque cada um ser humano será transformado em uma espécie de Mães Dinah, capaz de adivinhar quando a conotação sexual salta das pupilas.
Como ficariam as curtidas das redes sociais? Seriam consideradas olhares com conotação sexual? E do olhar imaginário presente nos banheiros (masculinos e femininos) como invocação ao sexo solo?
Bom, há um desiderato meio que imbecilizado nessa nefasta tentativa de impulsionar a civilização. Estamos, apáticos, vendo recrudescer posturas autoritárias próprias de estados totalitários que não deram certo em momento algum na história da humanidade, mas que no Brasil, onde o surrealismo é fértil, sempre se acha possível implementar.
Já imagino homens e mulheres robotizados, envolvidos em fetiches entre porcas e parafusos, como inspiração que simbolize os órgãos de preferência, que entre si conseguem se ajustar, sempre na dependência de uma chave de fenda ou de uma chave de boca.
Talvez o leitor ache absurdo. Eu já não duvido de nada num país em que a classe política finge que não vê a ruptura institucional real que já ocorreu pela via judicial. Prefere criminalizar olhares, ainda que sejam insinuantes ou excessivos. Indiferentes, fecham os olhos para as estultices judiciais diárias contra a Constituição, como se a culpada fosse ela.
Talvez o Olhar 43, aquele assim, meio de lado (diz a letra da canção) não sirva mais como instrumento de conquista. Ou será que a falta dele deixa algumas pessoas incomodadas?
Caros leitores, quando vocês forem ao supermercado procurem na prateleira uma caixa com ovos. Ao vê-la claro que o formato inevitavelmente revela que ali estão ovos. Ainda assim, constatarão também, que nela estará escrito: ovos. Sabem porquê? Exatamente por gente assim.