A SOBRA DO QUE SOMOS

Ano 14 – vol. 06 – n. 78/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20786372

Bom dia. 

Uma figurinha

Um vídeo 

Bom dia. Bom dia. 

Um aviso de desaparecimento de um animal. 

Bom dia.

Um santinho com pedido de oração. 

Bom dia. Bom dia. Confrades, confreiras, colegas. 

Bom dia. 

Feliz aniversário. 

Bom dia. 

Meus pêsames. 

Bom dia. 

Não sei bem onde nos perdemos ou nos achamos. Mas a realidade é outra. 

As flores chegam sem perfume. 

Ou há imersão no imaginário ou não se terá sentido o afeto que não seja na vaga lembrança de abraços. 

De cumprimentos em cumprimentos formamos um comprimento que vai para a memória do aparelho. 

Há os que nem nem memória mais têm – só uma vaga lembrança!

Falo dos aparelhos. Não me refiro ao Alzheime ou demência ou esquecimentos ou fingimentos nossos de cada dia. 

Falo da realidade. Viva. Atual. Presente. 

Fomos ou somos? 

É o que me pergunto porque ainda transpiramos desejos de abraços. Sorrisos sem disfarces. Beijos sem cadarços. 

Somos o que sobrou de cada um de nós em um tempo quase sem voz. 

As Olivettis se foram. 

Os teclados reinam e nós, teimosos pelo tempo, só queremos ser sobra sem jamais ser restos.

Somos porque fomos. Fomos porque somos. 

Que sejamos, então, e sigamos dando bons dias porque se já não há mais praças e bancos livres para os encontros, que nos façamos imersos no universo virtual. 

Mas que jamais se misturem os conceitos porque virtual é só a via. Verdadeira é a vida. 

Verdadeiro é o dia. 

Bom dia. 

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