Ano 11 – Vol. 10 – N. 64/2023 – https://doi.org/10.5281/zenodo.10004847
Não lhes falo de Eclesiastes apenas, lição que cedo aprendi.
Falo-lhes, sim, de Seu Dico. Sapateiro e sábio.
Conto-lhes, porque quem tem história para contar vive uma vez mais a cada contar, sem contar um conto acrescentando um ponto.
A avenida João Pessoa, 58, era o endereço. Lá nasci, lá tive meu tempo de menino, irrequieto e contestador, sempre. Lá amei intensamente.
Naquele tempo minha pele não era um lençol com dobras e eu corria pela rua, jogava bola na Astolfo Marques (transversal da João Pessoa), frequentava a igreja São Vicente de Paulo, estudava no Colégio Batista, onde encontrei o primeiro amor.
Lá, Fernando, Flávio “bacalhau”, Álvaro, Danúzio, Pablo, Fábio, Paulo Sérgio, Oliveirinha, Henrique, Fernando, Dominguinhos, Juvencio, Gregório, Guanaré e tantos outros, cujos nomes o tempo desbotou, mas não apagou da memória, todos convivemos com a paz da simplicidade e amizade. Não havia ricos e pobres. Não importava o sobrenome, apenas vivíamos e convivíamos com outros que por lá apareceram, como Jorge, depois transformado em “filósofo da São Pantaleão”- mas isto é uma outra estória – Geraldo e Ricardo Max.
Ali, entre as bebedeiras dominicais de seu Agostinho, que nos punha em pânico, ao impedir o tráfego dos poucos ônibus que ali trafegavam em concorrência com os bondes, até a chegada da polícia, quando ouvíamos os gritos de: Dr Vera-Cruz, me ajude! Ali vivi meus melhores dias sem saber.
Posso dizer que vivi no paraíso, só não sabia que uma das maiores lições da vida ali eu teria.
Acostumei-me, com meus irmãos, José Sérgio e José Reinaldo, à figura de Seu Dico, o sapateiro do bairro, instalado em uma meia portinha do “lado dos pobres”, como se falava então.
Com ele conversávamos sempre, porque nos parecia ser fruto de um milagre. Um homem que conseguiu sobreviver, depois de ter caído em um tacho de óleo na Carioca – a fábrica. As marcas no corpo eram a prova. Era uma espécie de herói. Sobrevivente, apesar da fervura do óleo. Continuava a desempenhar seu ofício, distribuindo risos, conselhos e piadas e a indefectível sentença: Tem tempo!
Era comum a todos nós, já adolescentes, frequentar o bar de seu Zequinha, no canto do Posto Sabbá, pegado ao barraco de dona Elvira, lavadeira caprichosa no ofício e voz destacada no coral da igreja. Ali, também, era ponto de encontro com os ídolos do futebol. Gimico, Célio Rodrigues e tantos outros. O Apeadouro sempre foi celeiro de bons jogadores de futebol.
Ali as cervejas mais geladas eram servidas pelo dono do estabelecimento, seu Zequinha.
Mas é preciso registrar, por dever de fidelidade aos fatos e gratidão a elas, alguns de nós frequentou o Sacavém, se é que vocês me entendem.
Pois bem, era hábito de meu pai beber com os filhos. Isto é singular. Era um gesto de amor, mas, também, uma escola em que o dever sempre era cobrado pelo exemplo dado. Isto deve ser resgatado entre os homens porque é entre os seus que as memórias se constroem. E é preciso tê-las para poder compartilhar. Felizmente nós tivemos isso.
Quando estávamos juntos lá estava seu Dico, presença indispensável. Na ausência também. A companhia preferida de meu pai era seu Dico.
Papai passava na portinha do estabelecimento do sapateiro e dizia: Seu Dico, vamos tomar uma? Era a senha. Ele fechava seu negócio e sentava, sem camisa, à mesa. Bebiam, com moderação, conversavam e, reiteradamente, eram interrompidos pelos frequentadores admirados como o Dr. Vera-Cruz, simples em si, mas celebridade do bairro, se sentava à mesa com o sapateiro.
Às tantas, antes da hora do do almoço, que era lembrado pela emissária de minha mãe, meu pai falava na saideira, ao que Seu Dico era taxativo: Tem tempo.
Um dia resolvi perguntar a meu pai, por que seu Dico. Por que, sendo um advogado, professor, membro da AML ele escolhera seu Dico como companhia. Uma das maiores lições de minha vida aprendi naquele dia. Disse-me:
Meu filho, esse homem, em sua simplicidade, rudez e pobreza me ensina mais do que eu lhe possa ensinar: a espontaneidade, a naturalidade, a sinceridade e a honestidade. E não pede nada em troca. Eu aprendo mais, estou no lucro.
Sabe, meu pai tinha razão. Ele aprendeu com Eclesiastes mas também com seu Dico: Tem tempo!
Às vezes não temos tempo que não seja de passar pelo tempo e quando nos damos conta o tempo somos nós, dobrados em rugas, rusgas, dores e amores. Mas sempre há tempo.
Tem tempo de lembrar. Tem tempo de amar. Tem tempo de sofrer. Tem tempo de plantar. Tem tempo de colher. Mas para mim, e, certamente, para meus irmãos, tem um tempo de lembrar Seu Dico, o sapateiro e sábio que dizia sempre: Tem tempo.
Hoje tenho tempo, porque guardo na memória seu Dico, o sapateiro e sábio, com quem meu pai aprendeu, com quem eu e meus irmãos aprendemos, com quem o Apeadouro todo aprendeu que não importa quem você seja, basta você compreender o compasso da vida.
Dê tempo ao seu tempo.