UM SAPATO

Ano 14 – vol. 08. – n. 91/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.21861577

Acordei hoje e senti a falta
de um dos pés do meu sapato.

Olhei debaixo da cama.
Busquei na sapateira.
Não encontrei.

Sentei-me um pouco à beira da cama
e, terminadas as orações,
só então me pus a lembrar:

partiste descalço,
como foi teu desejo.

E me lembrei de que foste
meu próprio chão,
meu piso,
minha inspiração.

Compreendi, então,
que a falta de uma banda do sapato
não me impediria de caminhar.

Só mais tarde percebi
que meus passos,
com apenas um dos sapatos,
apenas traduzem
que o outro foi entregue aos filhos
que caminham comigo.

E a banda do sapato
que ainda ficou comigo
um dia também já não estará:

com eles ficará.

E aos filhos deles
também haverá de chegar.

Assim, de passos em passos,
de pais para filhos,
o sapato continuará caminhando
mesmo quando já não estivermos aqui.

Neste dia,
em que só te vejo nas fotografias
e te sinto no peito,
saudade e alegria se misturam
numa estranha sensação.

Não é vazio.

É um imensurável desejo
de ter-te novamente perto de mim,
ainda que por um breve momento.

E, se pudesse,
por um instante apenas,
tornar a ouvir tua voz
e te dizer somente duas coisas,
não precisaria de mais nada:

Benção, meu pai.
Bom dia.

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