Ano 14 – vol. 07 – n. 84/2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.21281069
O futebol perdeu a magia da inocência. Virou uma lavanderia de conveniências, uma máfia de ocorrências, um repositório de evidências.
A sentença é dura, mas talvez apenas traduza o desconforto de quem ainda acredita que o esporte deve ser mais do que mercado, audiência, patrocínio e conveniência institucional.
O futebol sempre conviveu com erro humano. O impedimento mal marcado, o pênalti discutível, a expulsão exagerada, tudo isso fazia parte da liturgia imperfeita do jogo. A diferença é que hoje o erro já não se apresenta como fatalidade. Ele se apresenta, muitas vezes, como seletividade.
A tecnologia prometeu justiça. O VAR foi anunciado como instrumento de correção. Mas, quando a mesma imagem gera decisões distintas, quando a mesma regra é aplicada com rigor a uns e complacência a outros, a tecnologia deixa de pacificar e passa a agravar a suspeita.
O jogo entre Argentina e Egito expôs essa ferida. Para além do resultado, ficaram as reclamações sobre arbitragem, uso do VAR, gestos incompatíveis com o espírito esportivo, relatos de discriminação, xenofobia e a sensação de que a moralidade da competição foi subtraída pela falta de uniformidade decisória.
O futebol não pode admitir racismo. Não pode tolerar xenofobia. Não pode fingir normalidade diante de gestos que ofendam povos, culturas, origens nacionais ou identidades coletivas. A FIFA não pode tratar esses episódios como ruído lateral de espetáculo televisivo.
Se há protocolo, que seja aplicado.
Se há regra, que seja cumprida.
Se há violação, que haja consequência.
A impunidade no esporte produz o mesmo efeito corrosivo que produz nas instituições públicas: converte a regra em ornamento e a autoridade em encenação.
A FIFA precisa compreender que sua função não é apenas organizar torneios. Ela administra confiança. E confiança não se compra com marketing, mascotes, slogans ou cerimônias de abertura. Confiança se preserva com imparcialidade, transparência e coragem institucional.
Nenhuma competição se sustenta quando o público começa a acreditar que o regulamento é elástico, que a interpretação depende da camisa, que a punição depende da conveniência e que a moralidade esportiva pode ser sacrificada em nome do espetáculo.
A imparcialidade é o núcleo ético do jogo.
Sem ela, a vitória perde brilho, a derrota perde dignidade e o torneio perde autoridade.
A FIFA precisa reeditar seus rumos e suas regras. Deve tornar públicos os diálogos do VAR. Deve padronizar critérios de intervenção. Deve criar mecanismos independentes de avaliação da arbitragem. Deve punir com firmeza manifestações racistas e xenófobas. Deve impedir que a força econômica, política ou midiática de determinadas seleções produza suspeitas sobre a lisura da disputa.
O futebol é grande demais para ser sequestrado pela conveniência.
É popular demais para ser entregue a gabinetes fechados.
É simbólico demais para ser reduzido a negócio.
O torcedor aceita perder. O que ele não aceita é deixar de acreditar.
Quando o futebol perde a inocência, perde também sua autoridade moral. E quando uma Copa do Mundo deixa de parecer justa, não é apenas uma seleção que sai derrotada. É o próprio jogo.
A FIFA não precisa inventar outro futebol.
Precisa devolver ao mundo aquele que nos ensinaram a amar.