Ano 14 – vol. 07 – n. 83/2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.21223602
Há gestos que dispensam discursos.
Um único dedo pode revelar a dimensão moral, intelectual e ética de quem o levanta. Há momentos em que um gesto obsceno explica um homem com mais precisão do que uma biografia inteira.
As palavras podem ser ensaiadas. Os gestos, quase sempre, escapam pela porta da espontaneidade.
É justamente por isso que a liturgia dos cargos públicos jamais foi um detalhe protocolar. Ela representa um compromisso permanente entre o agente do Estado e a sociedade que lhe confiou parcela do poder.
A autoridade pública nunca está de folga.
Não importa se está em um tribunal, em um parlamento, em um palanque, em um aeroporto ou em uma solenidade. O cargo não é um paletó que se veste durante o expediente e se pendura no cabide ao final do dia. Ele acompanha seu titular onde quer que sua presença pública represente a instituição.
A liturgia é indissociável da autoridade.
Essa é uma das primeiras lições do Direito Público.
A autoridade não fala apenas por si. Não gesticula apenas em nome próprio. Ela simboliza uma instituição, representa um Poder e, por isso mesmo, empresta ao Estado a sua própria imagem. Cada palavra e cada gesto projetam sobre a instituição o respeito — ou o desprezo — que ela inspira.
Não existe gesto obsceno institucionalmente neutro.
Quando uma autoridade responde a críticas com um insulto visual, ela não degrada apenas sua imagem pessoal. Diminui a dignidade do cargo que ocupa e, por consequência, da própria República.
O problema nunca foi apenas o dedo.
O problema sempre foi aquilo que ele revela.
A grosseria não nasce no instante do gesto. Apenas se manifesta. Ela costuma ser fruto de uma compreensão distorcida da autoridade, como se o exercício do poder autorizasse a perda da educação, da moderação e da urbanidade.
Há uma velha máxima segundo a qual os homens acabam revelando em público aquilo que aprenderam nos lençóis de casa.
Talvez seja dura.
Mas frequentemente verdadeira.
Quem naturaliza a ofensa, quem transforma a vulgaridade em demonstração de força e quem acredita que a obscenidade substitui argumentos dificilmente compreendeu que o poder existe para servir, jamais para afrontar.
Em sociedades institucionalmente maduras, o decoro não constitui uma qualidade opcional.
É requisito de legitimidade.
A democracia vive do dissenso. Divergências são naturais. Críticas fazem parte da liberdade. O debate pode ser duro, contundente e até severo. O que jamais se espera é que as autoridades abandonem exatamente aquilo que delas mais se exige: equilíbrio, compostura e respeito.
Não é a crítica que enfraquece as instituições.
É o comportamento indigno de quem deveria engrandecê-las.
Quando a vulgaridade se transforma em espetáculo, quando a falta de educação passa a ser celebrada como autenticidade e quando a obscenidade recebe aplausos de militâncias apaixonadas, instala-se um perigoso processo de banalização institucional.
Pouco a pouco deixa-se de exigir excelência moral dos agentes públicos.
Depois deixa-se de exigir educação.
Em seguida deixa-se de exigir decoro.
Por fim, deixa-se de exigir vergonha.
Esse talvez seja o percurso mais silencioso da decadência republicana.
A República exige muito mais do que eleições periódicas, separação de Poderes e observância formal da Constituição. Ela reclama virtudes cívicas. Reclama homens e mulheres capazes de compreender que exercer autoridade é, antes de tudo, exercer autocontrole.
O cidadão comum pode perder a paciência.
Da autoridade exige-se serenidade.
O cidadão pode responder com impulsividade.
Da autoridade espera-se prudência.
O cidadão representa apenas a si próprio.
A autoridade representa toda uma instituição.
É exatamente essa diferença que justifica a existência da liturgia dos cargos públicos.
Quem não compreende isso talvez jamais devesse ter recebido a honra de ocupar um cargo de Estado.
Há uma diferença profunda entre autoridade e poder.
O poder pode ser imposto.
A autoridade precisa ser conquistada diariamente pelo exemplo.
E nenhum exemplo nasce da obscenidade.
Ao contrário, a obscenidade é sempre a confissão de que faltaram argumentos.
A República brasileira, desde seu nascimento, convive com recorrentes crises de ética pública. Em diferentes épocas, variaram os protagonistas, mudaram os discursos e alternaram-se os projetos de poder. O que infelizmente permaneceu foi uma preocupante tolerância social com comportamentos incompatíveis com a dignidade da vida pública.
Enquanto se admitir que a liturgia dos cargos seja relativizada pela conveniência política, continuaremos formando autoridades que acreditam ser possível separar o homem da função.
Não é.
Quem recebe parcela do poder estatal recebe, simultaneamente, o dever permanente de honrar a instituição que representa.
A toga, a farda, a beca, a faixa, o mandato ou qualquer outro símbolo da autoridade jamais transformam um homem em exemplo.
Mas impõem a ele a obrigação de sê-lo.
Porque o respeito às instituições começa, inevitavelmente, pelo respeito que seus próprios agentes demonstram ao povo.
E nenhuma República se torna verdadeiramente grande quando seus símbolos são reduzidos à vulgaridade de um dedo.