Ano 06 – vol. 01 – n. 01/2018
Quando menino tinha fascinação pelas histórias e estórias da grande Guerra que envolviam comunicações secretas, sinalizações náuticas e códigos de linguagem. Minha curiosidade transitava pela inquietação como era possível as pessoas terem a capacidade de compreender sinais de luz, bandeiras, sons etc que transmitissem mensagens.
Passado o tempo o salto nas comunicações foi tamanho que se hoje eu mencionar que para falar com meus pais na década de setenta, desde os Estados Unidos, onde eu estudava, foram necessárias quase cinco horas, as pessoas poderiam achar um absurdo. Mas é fato.
Mas a tecnologia é tamanha que faz poucos jovens terem conhecido um aparelho de fax. Hoje a comunicação é pelos aplicativos que substituem os pontos e traços do Morse e passaram a incluir em nossas vidas carinhas com as mais diversas expressões: os tais emojis.
Todavia, o que veio acelerar e dinamizar as comunicações trouxe consigo um grave e preocupante problema. O que foi concebido para facilitar tem causado traumáticas consequências nas relações humanas. As pessoas parecem ter perdido a capacidade de compreender a linguagem sem a imagem do emoji.
A pontuação tão necessária à expressão do idioma, capaz de exprimir sentimentos e sensações, parece que foi desaprendida. A ironia, a brincadeira inocente, o bom humor, enfim, não conseguem ser apreendidos e compreendidos mais.
As desavenças pessoais, muitas vezes, decorrem dessa falta de intimidade com a linguagem. Conheço muitos casos.
Dia desses indaguei em sala de aula quantos haviam lido O Pequeno Príncipe, clássico atemporal e do qual consigo extrair elementos para demonstração da teoria sistêmica do Direito. Para minha decepção apenas uma pessoa ergueu o braço sinalizando ter lido a obra.
Pois é. Quem não lê não sabe escrever a contento. Quem não sabe escrever é incapaz de compreender a linguagem escrita com propriedade, tornando-se um escravo de sinais. Antes, por necessidade, compostos por pontos e linhas. Hoje, decompostos em emojis.
Será essa falta de intimidade com a leitura que tem gerado muitas vezes essa intolerância generalizada na internet? Ou será que o Morse ganhou nova cara? Pelo sim, pelo não, queria Deus que não estejamos diante de uma sociedade “internalfabética”, neologismo que de virtual só tem sua expressão, mas de real tem um contingente global de analfabetos funcionais.