Ano 10 – vol. 03 – n. 13/2022
Em tempos esquisitos as coisas sempre podem piorar. Como? Bom, dê um microfone ao presidente Biden e ele se solidarizará com o povo iraniano pensando que falasse para o povo ucraniano. Gafe? Ato falho? Bom, não se sabe ao certo, embora certo seja qualquer estultice que venha dele e da sua vice, uma espécie de Dilma – não se sabe se piorada vou desmelhorada – só para fazer coro com essa linguagem exótica.
Mas a humanidade é capaz de cada coisa que, nestes dias, torna qualquer laboratório científico um local de escassos exemplares. Por exemplo, quem poderia imaginar que a direita pudesse defender a Rússia, a esquerda defender a OTAN e o Talibã pedisse a paz? Quem não vê aponta para quem não ouve.
No Brasil a riqueza é maior. O jornalismo de hoje, uma espécie de zoológico rico em exemplares exóticos, está a um passo de pedir registro perante o TSE, tamanha a profundidade das perguntas que são formuladas, com a consistência de um papel machê. Duvidam? Que tal “o dinheiro dos empresários que apoiam o governo Putin está escondido na Suíça”- pelo visto foi achado! Ou, ainda, “O que a o governo da Ucrânia acha da omissão do presidente Bolsonaro?” após o agente diplomático ter informado que o Brasil havia sido signatário da resolução da ONU condenando o ataque à Ucrânia. Ou, pasmem, de enquete em rede social indagando: “De que lado você está? Rússia ou Ucrânia?”, como se a paz não pudesse ser uma opção. Não, não foi enquete feita por um estagiário de redação, mas por um cabeça branca – sem qualquer alusão à música que inunda as rádios – do jornalismo, um serviçal a quem não atribuo o privilégio de comparar ao mais torpe dos homens.
Já nem falo da cura milagrosa da doença que nos legou especialistas informados, os mesmos que se bandearam a festejar o momo sem preocupação com o distanciamento reclamado. No reino da hipocrisia quem tem um olho não é rei, mas recebe a coroa do cancelamento midiático.
A guerra de sonegação de informações, subversão de fatos e versões, manipulação, enfim, de mentiras, mata aos poucos. A imagem lançada no ar, depois desmentida, não recebe da mídia um esclarecimento. Apenas varre-se para debaixo do tapete.
O mote hoje é a guerra, comparável a um Fla x Flu, como se o drama pudesse ser aferido com a profundidade do narrador esportivo que não consegue diferenciar adversário de inimigo. Bestificaram o Brasil quando fizeram elegia à ignorância. Não há nada de romântico nisso. Há, sim, de irresponsável, porque quem poderia difundir o clamor social dramático com fidelidade optou por se encostar em favores oficiais, subvertendo os acontecimentos. Gostem, ou não, é uma realidade. Não adianta dourar a pílula.
A situação do mundo é dramática. Não se enganem – ou seria: não se desinformem? Não há inocentes nesses acontecimentos. Há interesses econômicos e geopolíticos estratégicos. Há história conflituosa desde sempre. Há dependências de gêneros de toda ordem. Há, inclusive, quem deseje o conflito, porque sempre será um oxigênio à indústria bélica. Uma coisa, entretanto, não pode ser aceita pela loucura dos militantes de redação: venha de onde vier não é possível incensar quem faça elegia à banalidade do mal. Vida humana importa, não só na guerra. Do contrário, selecionar quem deve e por que deva morrer, inclusive os que não tenham voz, não passa de um diálogo entre cego e surdo, embora sempre haja vaga para um louco.