ABANDONADA

Ano 14 – N. 110 – outubro 2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.23162554

Eu, que vivia recolhido pelas circunstâncias, busquei em ti alento.

Seduziste-me como a única esperança.

Apaixonei-me, devotado por inteiro, como quem, náufrago, encontra a boia de salvação.

Mas eu não estava só na ilha. Muitos outros pareciam ter se juntado a mim quando te anunciaste.

Amor jurado, porém, não é igual a amor comprometido. O tempo demonstrou.

Destacar a beleza, festejar a riqueza, incensar a vaidade — tudo em excesso pode levar ao descuido.

E a displicência é um ultraje tão grave quanto a indiferença.

O tempo passou.

Romperam teu hímen sem o cortejo indispensável de quem ama verdadeiramente.

Apenas te possuíram com a volúpia brutal e descuidada, violenta e nefasta.

Seres abjetos. Imundos.

Confesso-me a ti uma vez mais:

— Ainda te quero viva.

Lavo tuas feridas a cada visita, com o desejo de que sares.

As cicatrizes contam histórias. Mais dos algozes, que não as apagarão jamais, do que de ti, que apenas as catalogarás como mais uma vitória.

Hoje cedo nos encontramos.

Abriste-me os braços como a me dizer que está escrito. Não há mistérios. Basta compreender que juramento não é nada se não houver comprometimento. Compromisso posto em prática.

Eu continuo a te abraçar com sentimento. Com ternura. Com a convicção de que, sem ti, não haverá salvação.

Apesar dos que de ti se adonam para logo te abandonar, como se fosses apenas uma rameira.

Não és.

Passaram trinta e oito anos desde aquele encontro.

E, apesar das feridas, das cicatrizes, dos algozes e dos falsos amantes, ainda estás aqui.

Talvez abandonada por muitos.

Jamais por mim.

Ainda assim — ou exatamente por isso — feliz 38 anos, Constituição da República Federativa do Brasil.

Eles são ordinários.

Tu és Norma Suprema!

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