SOU BRASILEIRO, MAS NÃO SOU ESCRAVO. NÃO TENHO SENHOR

Ano 02 – vol. 05 – n. 06/2014

Sim, sou brasileiro.

Sim, brasileiro com muito orgulho e com muito amor, como costuma entoar a torcida no arroubo de brasildade nos embates desportivos.

Tenho orgulho de ser brasileiro, mas já não tanto do Brasil. Explico.

Atualmente, com pesquisas de estudos que desenvolvo para o pós-doutoramento tive a oportunidade de conviver por período razoável com caríssimos portugueses, e mais gente de outras nacionalidades, que sempre me perguntavam sobre a copa, com um misto de curiosidade desportiva e uma certa dose de incompreensão.

É que o país em que tem um estado (e isto se fala em Coimbra) cuja pobreza desafia os mais pobres países africanos, no caso, o Maranhão, como se explicar que possam ser gastos bilhões de reais para a construção de estádios de futebol, se com a mesma quantia escolas, hospitais e presídios poderiam ser construídos. Pois é. Como explicar o inexplicável?

Calma! É preciso que não se confunda, como pretendem os pontas de lança do PT que se encontram ocupando os espaços de rádio, tv, internet etc. para defender a realização da copa, com o discurso de que o  legado será enorme, de que quem é contrário é porque não gosta da seleção e nem do país etc.

Houve um tempo em que a doutrina da segurança nacional fez carros, vitrines, estabelecimentos em geral, ostentarem um “plástico”, não se chamava adesivo, com a frase “BRASIL: AMEO-O OU DEIXE-O”.

Pois é. Quem diria que os companheiros que surgiram no país tendessem a esse mesmo perfil autoritário e opressor. Quem diria que o líder que ia a palanques e falava em gastos com cenouras para o cavalo do presidente Figueiredo se notabilizasse por ternos caros, vinhos caríssimos, charutos cubanos e outras iguarias mais que normalmente rondam o poder desde a antiguidade. Pois é. Que fique a graxa para o povo.

Pois bem. Meu orgulho de ser brasileiro reside basicamente em defender que a Constituição deva ser aplicada, indistintamente, a todos. Meu orgulho de ser brasileiro é saber que quando entro em sala de aula eu sempre digo aos meus alunos que eles têm um débito social com quem financiou suas presenças na universidade pública. Meu orgulho de ser brasileiro é querer que meu país tenha governantes decentes que tenham responsabilidade com a coisa pública e que não delapidem o patrimônio público com cartões corporativos com gastos que vão desde uma simples tapioca até gastos em “free-shops” de aeroportos.

Logo, não sou contra a seleção brasileira, nem contra seus atletas que ganharão fortuna de premiação de forem campeões. Mas não me entusiasmo com essas séries televisivas de exaltações de biografias apelativas que mostram supostos heróis que venceram na vida. Saíram da miséria, que tomavam conduções, que tinham só arroz e ovo para o jantar. Não!

Heróis são, sim, esses Zés e Marias do dia-a-dia que não têm ônibus, porque o direito de ir e vir lhes foi tirado por decisões arbitrárias e ilegítimas de grupos sindicais sem qualquer representatividade. Heróis são os que lutam verdadeiramente, sem se deixarem seduzir pelas migalhas de programas governamentais cuja essência é só uma: manter o cabresto dos coronéis contra os quais discursavam. Esse são os heróis verdadeiramente. Não esses que os canais de televisão tentam nos impor.

Como disse, tenho orgulho de ser brasileiro. Mas creio, como disse um polêmico jornalista desportivo, que o Brasil perdeu a copa, embora a seleção brasileira vá ganha-la, o que faz transparecer ser um certo cenário de “cobicemos”, a exemplo do que ocorreu entre a FIFA (sim, a FIFA, essa entidade particular que ganhou isenção fiscal dos nossos políticos) e as forças de repressão da Argentina durante o governo Videla.

Como disse, sou brasileiro, mas dos que tem orgulho de trocar esta copa pela paz social com a repartição de renda digna a que pessoas não se deixem mendigar.

Esse é o Brasil que eu quero: com saúde, transporte público, segurança, educação. Então, quem é mais brasileiro? Eu que quero o bem do meu país ou quem diz ter orgulho do país só quando há uma disputa desportiva? Eu que critico para que ele melhore ou aqueles que engrossam discursos de partidos políticos cujos membros só se diferem do CV pela gravata?

Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor. Mas não tenho alma de escravo e nem tenho senhor!