Ano 02 – vol. 06 – n. 08/2014
Eu vejo carros embadeirados. Eu vejo gente em ver-amarelo. Ouço buzinas. É um turbilhão nacionalista que não pode passar em branco, até por que um país em que a bandeira é verde, amarela, azul e branca, e por cima fala em ORDEM E PROGRESSO, é impossível ficar indiferente.
CENA I – SEMÁFORO AMARELO
Era verde a luz, mas aí ficou amarela e, mesmo assim, o motoqueiro entendeu que tinha o direito de continuar, subir a calçada, fazer dela retorno, e continuar o trajeto.
CENA II – ESTACIONAMENTO DO SHOPPING take I
O chão possui marcação azul com letras garrafais brancas: IDOSO.
Do carro desce uma rapaz forte, desses que a musculatura ou é a prova de bala ou esconde a sexualidade reprimida. Calmamente estaciona e diz, pelo IPhone de última geração, a alguém: – Aê otário, não disse que tinha vaga aqui?!
CENA III – ESTACIONAMENTO DO SHOPPIN take II
O chão possui marcação azul com letras garrafais: DEFICIENTE.
Desa vez uma loira com uma bolsa Louis Viton (não se sabe se alternativa) desce de um carro com um par de pernas funcionando, metida numa calça que mal cabe uma das bandas da bunda.
O que isto tudo tem a ver com o momento Brasil, sil, sil? Tudo!
Somos um país, só isso. Nacionalidade ética está difícil. Ordem e progresso, nem se fala!
Não, não sou contra a copa, em que pese todo o roubo que ela permitiu, pondo o país de joelhos a uma entidade que tem métodos quase mafiosos de ação, quando proíbe baianas próximo da área do estádio, por exemplo. Então, por que a baiana com sua indumentária e as comidas típicas foram transformados em patrimônio, se a ordem jurídica brasileira pode ser ultrajada pelo “estado da FIFA”? Que vergonha!
Vergonha de que, no semáforo, nos estacionamentos, a nacionalidade não seja lembrada. Vergonha porque nenhuma autoridade está nas ruas para que um cidadão pacato possa reclamar.
Eu não posso dizer que tenho vergonha de ser brasileiro, mas certamente tenho vergonha do que fizeram e ainda querem fazer mais com o Brasil.
De uma coisa eu tenho, hoje, absoluta certeza. Nacionalidade só temos se objetivamente considerarmos a definição teórica, porque, sociologicamente, nós somos um povo sem ética social, pelo vício de querer levar vantagem em tudo.
Somos um país, mas longe estamos de uma nação. Somos um povo que só temos pátria na hora da copa, o que beira a ser um povo filho da puta, um povo sem pátria, governado por brutos. Ou seria por putos?