CAUSAS E CAUSOS

Ano 09 – vol. 07 – n. 56/2021

O que me move a escrever sobre este assunto é a imensa e infrutífera discussão sobre um debate que melhor espaço ocuparia em um ponto de recolhimento de resíduos sólidos da prefeitura de São Luís: a estátua.

Assisti, com profunda tristeza, a manifestação de uma representante da classe artística bradar um “Aqui não!”, fazendo uma elegia à não admissão da construção de uma réplica da Estátua da Liberdade, símbolo de uma rede de lojas que vai se instalar no Maranhão. Percebi, desde logo, que a questão em si é que o proprietário é apoiador confesso do atual presidente da república. Pronto!


Confesso desconhecer a artista. Mas isso não parece ser um pecado, pelo visto a pessoa desconhece a história do monumento. Não posso culpa-la, talvez estivesse lendo um manifesto político, uma vez que trata de assunto que nem de longe aborda o que invoca como pano de fundo do cenário: o patrimônio histórico e urbanístico de São Luís. Sobre o assunto, hoje, bem escreveu Ronald Almeida, arquiteto não apenas de reconhecido valor, mas profundo conhecedor sobre o que fala.

Acho interessante as pessoas se preocuparem com a cidade de São Luís, em defesa de um patrimônio mundialmente reconhecido por declaração da UNESCO. Todos temos o dever de protege-lo, pois é de todos, mas não de cada um quando, por exemplo, urina na rua, joga papel no chão, defeca debaixo de árvores, fuma um baseado em público, enfim, todas posturas incompatíveis com a preservação desta bela, mas maltratada cidade.

Observo que a tal estátua será construída em propriedade privada – direito constitucional fundamental – como símbolo de um empreendimento privado – fundamento constitucional. Ali, na Avenida Daniel de La Touche, até onde eu saiba, não se estende o perímetro considerado pela UNESCO para atribuir o título a São Luís. Então, onde estaria a ameaça à desconfiguração cultural e patrimonial?

Acho estranho que não cause espanto e indignação aos ora opositores da estátua a instalação de uma construção – que como a estátua não merece a denominação de monumento – existente ao lado do Forte de Santo Antonio, na Ponta D’areia. A invocação de “Ilha do Amor”, naquela coisa de muito mal gosto, profana a cidade, pois no centro do coração há uma estrela em revelação subreptícia da causa ideológica mais assassina na história da humanidade. Nem o revestimento em azulejos minimiza a tragédia.

Onde foi parar a indignação? O coração, também, nasceu há muitos anos como uma declaração de amor em à cidade de New York, sim, ali onde o imperialismo yankee seduz os revolucionários de araque! Depois se espalhou por todo o mundo. Só em São Luís aportou com o mal gosto ideológico, sem que ninguém se preocupasse com isso.

No ritmo em que tocam os tambores de São Luís parece que cultura é sinônimo de atraso, porque discussões sobre assuntos como este revelam tanta consistência quanto a fumaça. E olha que uso a figuração apenas!

As causas são sempre bem-vindas quando as coisas tenham pé e cabeça. Neste caso, não sei quem fez a cabeça de quem, mas até a estupidez tem limites. Politizar algo que não tem a menor razão de ser é apenas um causo, não uma causa. E até o causo, em causa, é de uma opressão totalitária de tal monta que só mesmo defendendo a liberdade de estátua. Só espero que não apareça nenhum empresário com a ideia de simbolizar o seu empreendimento com uma mão. Haverá quem corte um dedo.

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