UM ADEUS A ADYR

Ano 12 – vol. 03 – n. 14/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.10934185

Soube há pouco do falecimento de um colega de Colégio Batista. Pessoa de rara inteligência com quem mantive uma estreita amizade: Adyr Ewerton Santos Filho.

Lembro dos bons tempos de escola em que nos envolvemos com questões sociais, através do INTERACT, um braço do Rotary Club que inseria os jovens na prática de ações de solidariedade. Mas também éramos apreciadores de James Tayor, especialmente quando ele pedia que eu tocasse ao violão Fire and Rain ou You’ve got a friend. 

Não poderia deixar de confessar. Rolaram cervejas, cigarros – jamais usamos drogas ilícitas -, bate papos de juvenis revolucionários que em tudo viam motivos para protestos. Aos sábados, especialmente, sempre havia um encontro na casa de uma das colegas onde as mães nos acolhiam e escutávamos, nas vitrolas portáteis, as músicas que traduziam nossos sentimentos.

No dia do resultado do meu vestibular, às 6:00 horas da manhã – o resultado saiu por volta das 5:00h – lá estava ele, já universitário, vibrando com minha aprovação. Penso ter sido o último encontro antes dele ter saído de São Luís. 

O tempo passou e os 40 anos de saída da turma de 1976 do Colégio Batista foi um dos melhores momentos de nossas vidas. Vivemos cada instante rememorando, rindo, dançando, tentando recuperar o que deixamos no passado fisicamente, mas espiritualmente compreendemos que a fraternidade verdadeira tem sentido quando a ausência de cada um pode desbotar o jeans, jamais apagará a etiqueta: Made in Brazil by real Friends

O reencontro produziu novos encontros, novas conversas possíveis pelo WhatsApp. 

Os tempos virtuais nos aproximam e afastam, porquanto as adversidades políticas nos põem em lados opostos, mas – a mim e a muitos – não em lados contrários. O oposto se põe em lado diferente; o contrário desvia o caminho e jamais aproximará o mandamento: amai-vos uns aos outros. Pelo menos entre alguns de nós mantivemos o convívio urbano.

Diferenças à parte sei, seguramente, que a admiração recíproca foi – e sempre será – constante, porque o homem que guarda em si sua infância jamais morrerá, apenas se aproxima da eternidade.

Reencontrar-nos depois de tantos anos penso ter sido uma permissão divina para que, amadurecidos pela vida, tenhamos tido a oportunidade de reviver o que nos fez homens e mulheres. Entre nós, sempre seremos as mesmas crianças. Não nos vemos com rugas, nem com sobrepeso, muito menos com cabelos brancos. Nós nos vemos com os olhos ternos e talvez cansados, mas o olhar não envelhece. 

Hoje, chegado o dia da partida, ultrapassando um sofrimento que em todos nós doeu muito, digo-te: Adeus, Adyr. Tenho certeza de que nos braços de Deus finalmente compreendeste que só Ele salva. 

Ah! Ia quase esquecendo. Quando lembrares dos nossos encontros o violão estará afinado sempre para que tu possas escutar: You’ve got a friend. Segue em paz. Por cá ficamos chorosos pela tua partida, mas felizes por te ter como amigo.

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