Ano 13 – vol. 07 – n. 56/2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.16539285
Sempre é bom retomarmos recordações com a boa saudade, que classifico como a que se gostaria de viver uma vez mais. Dos muitos diálogos que a vida me permitiu ter com meu saudoso pai um deles dá sentido a este breve escrito.
Mesmo as dores quando lembradas trazem memórias e consigo uma certa saudade. Dessas devemos guardar o aprendizado e não querer repeti-las.
Pois não é que vivemos um momento de “Iluminismo pujante” no Brasil? Meio surreal, é bem verdade. Sim, explico.
Já produzi a defesa do tema “O ilusionismo Constitucional” em evento internacional. Dele recolho a ideia do ilusionista que no palco é capaz de fazer o óbvio e o espectador não perceber o truque, embora saiba que se trata de um.
Pois bem, a prepotência de alguns e a omissão de muitos tem produzido no Brasil uma notória percepção internacional: eles continuam a colônia que não soube compreender e nem aprender com os próprios erros.
E quem não tem a capacidade de aprender com os erros está condenado a repeti-los como o contumaz delinquente que é preso pela polícia (e nem sempre de forma errada) e solto pela justiça (quase sempre de forma equivocada) ao tornar regra a palavra de quem tem certeza da impunidade, restando a sensação de que o cidadão só é medido pela régua ideológica, não pela dimensão ética.
Mas como a memória de infância e juventude me é um repositório de lembranças chego aos diálogos que me deram o passaporte para este breve colóquio.
Perguntei a meu pai sobre uma criatura, empedernido em suas vestes talares, sobre seu conhecimento e competência. Meu pai, na sua humildade originária, mas também certeiro em sua crítica sútil e ácida, respondeu-me:
- “Se comprares por quanto ele vale e venderes por quanto ele pensa que vale terás um lucro imenso”.
Com o tempo constatei, como advogado, que papai tinha razão.
Em outra oportunidade minha indagação foi em torno da literatura. O volume de poetas me fez indagar sobre a qualidade de um e, mais uma vez, a resposta foi breve:
- “É uma besta quadrada”.
Não tive (e não tenho) autoridade para ser um crítico, mas sim, tenho o discernimento suficiente para afirmar que ainda aqui a resposta de meu pai foi e continua sendo útil e certeira.
Somos um universo composto de bestas quadradas que escrevem livros, fazem discursos, elevam o tom da voz e, ao que parece, alguns comem capim. Não passam de éguas com egos quadrados.
A Academia, com significativo atraso de décadas produzindo trabalhos com a consistência do papel celofane, deu espaço a livros cuja consistência de manuais mal conseguiriam enrolar manteiga a retalho na Mercearia Neves, é a grande fábrica do que as gerações futuras não serão.
Meu pai tinha razão. As bestas quadradas estão por aí e se multiplicam, com egos inflamados pela prepotência. Mas não passam de bestas.