Ano 14 – vol. 03 – n. 22/2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.18864883
Há lembranças de infância que permanecem acesas mesmo quando o tempo insiste em apagá-las. No meu caso, elas brilham com a luz modesta de três personagens domésticos: o petromax, a lamparina e o lampião.
Quando eu brincava no sítio Vililma, propriedade de vovô Pavão, às margens do Rio de São João, essas palavras faziam parte natural do vocabulário cotidiano. À noite, quando o sol se recolhia e a escuridão tomava conta do campo, era a luz dessas engenhocas que permitia as conversas demoradas, as histórias contadas sem pressa e as rodas de violão conduzidas por vovô. Não havia rede elétrica, mas havia algo talvez mais raro hoje: tempo, silêncio e convivência.
O tempo passou. O petromax foi aposentado, a lamparina virou peça de memória e o lampião ficou guardado como símbolo de um Brasil rural que já não existe. Mas eis que, de forma inesperada, a palavra voltou ao noticiário — não pela lembrança da infância, mas por uma declaração presidencial que misturou história, bravata e uma boa dose de imaginação política.
Segundo a fala divulgada, o presidente norte-americano deveria ter mais cautela com o Brasil se conhecesse a “sanguinidade de Lampião do brasileiro”. A frase, evidentemente, não se referia ao objeto luminoso que iluminava as noites de minha infância, mas ao cangaceiro Virgulino Ferreira, o famoso Lampião, que para alguns virou personagem folclórico e para outros permanece apenas como aquilo que de fato foi: um bandoleiro sanguinário do sertão.
É curioso observar como certos discursos políticos recorrem a heróis improváveis quando falta argumento real. Invocar Lampião como símbolo de bravura nacional talvez funcione em palanque ou em roda de admiradores entusiasmados. Já no campo da realidade estratégica, a coisa se complica um pouco.
Imagino, com certo esforço de humor, o temor que tal advertência provocaria em Washington. Afinal, estamos falando da maior potência militar do planeta sendo advertida sobre a bravura cangaceira do brasileiro. A cena, se levada a sério, beira o teatro do absurdo. Em termos militares objetivos, bastaria uma aeronave moderna e poucos minutos para que qualquer bravata tropical fosse substituída por um silêncio bastante constrangido.
Daí a dúvida inevitável: tratou-se de bazófia, delírio retórico ou apenas de mais um episódio do folclore político contemporâneo? Não é fácil distinguir. Às vezes a política brasileira produz frases que parecem saídas de uma comédia involuntária.
Seja como for, a declaração teve ao menos um mérito involuntário: fez-me recordar o velho lampião da infância. Aquele, sim, tinha utilidade concreta. Iluminava as noites, ajudava a reunir pessoas e não pretendia intimidar superpotências.
Ao final da reflexão, resta uma conclusão simples. Nem o lampião que clareava as rodas de violão no sítio Vililma, nem o cangaceiro que a história transformou em mito regional teriam a menor capacidade de alterar o equilíbrio geopolítico do planeta.
Mas ambos servem, cada um à sua maneira, para iluminar algo curioso: a distância abissal entre a memória tranquila do passado e o espetáculo retórico da política presente.