Ano 14 – vol. 04 – n. 41/2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.19454280
O Brasil está chato. Dessa vez puseram um bode na sala.
Há sinais de que uma sociedade está perdendo o eixo.
Eles não aparecem apenas nas grandes crises institucionais, nos embates entre Poderes ou nas decisões que desafiam o texto constitucional.
Eles surgem também no cotidiano — discretos, quase invisíveis — como quando já não conseguimos nomear as coisas pelo que são.
Por isso, de forma tópica e (desejo) didática resolvi apresentar estas considerações com o propósito acadêmico para ampliar a compreensão do que no Brasil vige, mas ainda não é bem compreendido, como fundamento constitucional do pluralismo político.
Tomemos um exemplo simples: a menstruação.
Tudo porque o jogador Neymar Júnior, após receber um cartão amarelo em uma partida de futebol, resolveu ironizar a atitude do árbitro sugerindo que ele saiu de casa “de bode”.
Pronto. A terceira guerra mundial parece ter começado pelo linchamento do jogador.
Mas o que há por trás de tudo isso? Bom, há os que especulam briga de patrocínio que não permite que atletas concorrentes possam estar na mesma equipe. Há os que reduzem a questão ao preparo físico do atleta em decorrência de uma vida mais ou menos boêmia. E há os que viram na preferência política do atleta o verdadeiro motivo, traduzido pela sabida prática de jornalistas desportivos que não suportam o sucesso do jogador.
Mas o que importa é que a declaração está muito longe das ilações a que chegaram algumas jornalistas que pretendem exclusividade no “lugar de fala” e de alguns jornalistas que pretendem ser simpáticos com o discurso para não desagradar a plateia ou não correr risco doméstico. Essa gente, aliás, não se incomoda quando o assunto é homem vestir saia e ocupar espaços femininos.
Certo é que Neymar falou como o meio masculino fala sem nenhum propósito depreciativo, ao menos até onde se enxergue com olhos de quem tem mínima sanidade. Afinal, de que falou mesmo?
Bom, falou, de modo risível até, de um fenômeno biológico elementar, previsível, inerente à condição feminina. Ainda assim, raramente chamado pelo nome. No lugar dele, uma coleção quase infinita de substitutos que empiricamente extraí da internet, a saber:
| “naqueles dias”, “período”, “de regra”, “mensal” |
| “no vermelho”, “sinal vermelho”, “bandeira vermelha” |
| “a visita chegou”, “visitante mensal” |
| “desceu”, “tá descendo” |
| “tá ruim”, “incomodada”, “indisposta” |
| “chico”, “estar de chico” |
| “tá de lua”, “tempo da lua” |
| “o elevador desceu”, “maré baixou”, “açougue abriu” |
| “código vermelho”, “alerta ativado”, “bugou” |
Não é pobreza vocabular. É excesso de cautela.
E cautela em excesso, quando se trata da palavra, costuma ser o primeiro sintoma de restrição da liberdade.
A linguagem como reflexo — e como sintoma
A Sociolinguística ensina que a linguagem reflete a sociedade.
Mas também a denuncia.
Quando um fato natural precisa ser constantemente contornado por metáforas, não estamos apenas diante de criatividade linguística. Estamos diante de um desconforto coletivo.
Historicamente, isso se explica.
O corpo feminino foi cercado por tabus, moralismos e até falsas ideias de impureza. A linguagem, como sempre, incorporou essas distorções.
Mas o que antes era fruto de constrangimento cultural começa a assumir hoje outra feição: a do controle.
Do constrangimento ao policiamento
Se antes não se dizia por vergonha, agora muitas vezes não se diz por receio.
Receio de empregar a palavra “errada”.
Receio de ser enquadrado por alguma nova ortodoxia discursiva.
Receio de que o simples ato de nomear seja interpretado como afronta.
E aqui reside o ponto central.
Não se trata mais de pudor.
Trata-se de vigilância.
A Constituição e o direito de dizer
A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 é clara ao assegurar, em seu art. 5º, a liberdade de manifestação do pensamento, vedado o anonimato.
Não se trata de um enfeite retórico.
Trata-se de um dos pilares do Estado de Direito.
A liberdade de expressão não nasce apenas para proteger grandes discursos políticos. Ela protege, antes de tudo, o direito de dizer o óbvio sem medo. É disso que também trata o pluralismo político que é constitucionalmente acolhido como fundamento do Estado Democrático de Direito – art. 1º, inciso IV.
Quando até palavras corriqueiras passam a exigir filtros, adaptações ou permissões implícitas, algo se desloca perigosamente do seu lugar.
O risco do silêncio sofisticado
Há uma forma moderna de restrição que não proíbe — apenas constrange.
Não censura diretamente — apenas induz.
Não pune formalmente — mas cria um ambiente em que falar livremente se torna desconfortável.
É o silêncio sofisticado.
Aquele que não se impõe pela força, mas pela pressão difusa.
Aquele que não cala pela lei, mas pelo clima.
E ele é mais perigoso justamente por isso.
Entre a metáfora e a submissão
Não há problema algum na riqueza linguística.
O brasileiro sempre foi fértil em metáforas, e isso é traço de inteligência cultural.
Dizer “a visita chegou” pode ser leve.
Dizer “tô naqueles dias” pode ser apenas hábito.
Dizer “tá de chico” pode ser do universo do futebol.
O problema não está na existência das alternativas.
Está na impossibilidade — ainda que velada — de usar a palavra direta.
Porque quando a metáfora deixa de ser escolha e passa a ser obrigação, ela deixa de ser linguagem e se torna mecanismo de contenção.
Nomear é um ato de liberdade
Dar nome às coisas é um dos gestos mais elementares da autonomia humana.
É por meio da palavra que organizamos o mundo, afirmamos a realidade e delimitamos o que é e o que não é.
Quando esse gesto simples passa a ser monitorado, relativizado ou condicionado, não estamos diante de uma questão semântica.
Estamos diante de uma questão estrutural.
Neymar usou da linguagem que se fala e com a qual não se discrimina e nem diminui ninguém, ainda quando a subjetividade dos “intérpretes” se tornado quase um delírio entre os jornalistas da área de esportes dos canais que, a rigor, são da mesma empresa que não gosta visivelmente do jogador.
Conclusão
Talvez o sinal mais inquietante do nosso tempo não esteja apenas nas grandes rupturas institucionais, mas nessas pequenas concessões cotidianas.
Quando até um fenômeno biológico precisa ser disfarçado, não por delicadeza, mas por receio, é porque a liberdade já começou a recuar — ainda que silenciosamente.
E a história mostra, com insistência, que toda liberdade que se perde nas pequenas coisas dificilmente se recupera nas grandes.
Porque, ao final, não é apenas sobre palavras.
É sobre quem ainda pode dizê-las. E, convenhamos, já não se pode nem dizer que é mimimi, é burrice mesmo disfarçada de uma ideologia amarelada pelo tempo.