Vol. 14 – N. 31 – novembro 2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.23949124
Palavras-chave: Magistério; Universidade; Conhecimento; Dúvida; Vocação; Educação.
Há datas que não se contam apenas pelo calendário. Contam-se pelas lembranças, pelos encontros, pelas ausências e, sobretudo, pelas marcas que o tempo deixa em nós.
Hoje completo 41 anos como professor do Curso de Direito da Universidade Federal do Maranhão. Mas minha história com essa instituição começou antes, há exatos 50 anos, quando nela ingressei como assistente administrativo.
Naquele tempo, não poderia imaginar que os corredores pelos quais caminhava como servidor se tornariam os mesmos por onde, anos depois, passaria como professor. Muito menos que o destino me reservaria a condição de decano do curso em que me graduei.
O tempo tem dessas delicadezas. Não anuncia seus propósitos. Apenas nos convida a caminhar.
E caminhei.
Primeiro, como quem descobre o mundo. Depois, como quem procura compreendê-lo. Finalmente, como quem percebe que compreender o mundo é tarefa que jamais se conclui.
Foi na Universidade Federal do Maranhão que recebi minha formação jurídica inicial. Ali nasceram inquietações que me levariam à secular Faculdade de Direito do Recife, onde realizei o mestrado. Depois, à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, para o doutorado. Mais adiante, atravessei o Atlântico em direção à Universidade de Coimbra, onde concluí o pós-doutorado.
Foram caminhos diferentes, cidades distintas, ambientes acadêmicos diversos. Mas havia algo que me acompanhava em todos eles: a dúvida.
Nunca a compreendi como adversária do conhecimento. Ao contrário, sempre a considerei sua companheira mais fiel.
A certeza pode tranquilizar. A dúvida, entretanto, nos obriga a caminhar.
Talvez por isso jamais tenha conseguido aceitar o saber como propriedade definitiva de alguém. O conhecimento não é um território conquistado para nele se instalar uma bandeira. É uma paisagem que se modifica a cada novo olhar, a cada pergunta, a cada descoberta.
O saber é um processo. Não um ponto de chegada.
E foi essa compreensão que procurei levar às salas de aula.
Não sei quantas vezes atravessei suas portas. Não sei quantos rostos encontrei, quantas perguntas ouvi ou quantas respostas deixei de oferecer. Sei, entretanto, que em cada turma havia uma oportunidade de aprender novamente aquilo que imaginava já conhecer.
Porque ensinar não é apenas falar para quem escuta. É também aprender com quem pergunta.
O professor que não admite ser surpreendido por seu aluno talvez tenha deixado de compreender a grandeza do magistério.
A sala de aula nunca me pareceu um altar. Tampouco uma tribuna destinada à celebração de certezas pessoais. Sempre a compreendi como espaço de encontro, de divergência, de investigação e, acima de tudo, de liberdade intelectual.
Nela não deveriam existir sacerdotes do pensamento, mas pessoas dispostas a compreender o que ainda desconhecem.
Se alguma convicção permaneceu comigo durante essas quatro décadas, foi a de que conhecimento não transmitido é conhecimento perdido.
De que serviria acumular livros, títulos, experiências e reflexões se tudo isso permanecesse encerrado nos limites de uma existência individual?
O conhecimento guardado apenas para si corre o risco de desaparecer com quem o possui. O conhecimento compartilhado encontra outras vidas, provoca novas perguntas e pode sobreviver àquele que o transmitiu.
É essa, talvez, a mais bela possibilidade oferecida ao professor: continuar presente mesmo quando já não estiver diante da turma.
Não pela lembrança de seu nome, mas pela inquietação que eventualmente tenha despertado.
Ao longo desses anos, vi transformações profundas na universidade, no Direito, nas instituições e na própria sociedade.
Vi ideias nascerem e envelhecerem. Vi teorias anunciadas como definitivas perderem sua força diante de novas realidades. Vi o pensamento jurídico oscilar entre a fidelidade aos seus fundamentos e a sedução das novidades.
E vi, também, o crescimento de uma estranha impaciência com a dúvida.
Vivemos tempos em que frequentemente se prefere a afirmação à reflexão, a palavra de ordem ao argumento, a adesão à investigação.
Tempos em que discordar pode ser confundido com hostilizar e em que a independência intelectual, tão indispensável à universidade, parece incomodar aqueles que desejam transformar o conhecimento em instrumento de obediência.
São tempos tenebrosos, não necessariamente pela ausência de informação, mas pela facilidade com que a informação é confundida com sabedoria.
Nunca tivemos tantos meios de acesso ao conhecimento. E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão necessário recordar que conhecer exige esforço, disciplina, humildade e disposição para rever aquilo que se pensava saber.
Nesse cenário, o magistério assume uma responsabilidade ainda maior.
Ensinar Direito não pode significar apenas reproduzir leis, decisões judiciais ou doutrinas. É necessário despertar a consciência de que o Direito não existe para servir às conveniências dos poderosos, mas para estabelecer limites ao exercício do poder e oferecer segurança à convivência humana.
A universidade não deve fabricar seguidores. Deve contribuir para formar consciências.
E a consciência, quando verdadeiramente livre, não se deixa aprisionar pela autoridade de quem ensina.
Por isso, nunca compreendi a divergência acadêmica como afronta pessoal. O aluno que questiona, desde que comprometido com a seriedade intelectual, não diminui o professor. Pode, ao contrário, oferecer-lhe a oportunidade de reconhecer suas próprias limitações.
A dúvida é uma forma de respeito ao conhecimento.
Hoje, quando olho para trás, encontro muito mais perguntas do que respostas.
Talvez seja esse o sinal mais verdadeiro de que o tempo não passou inutilmente.
Não me interessa transformar esta data em inventário de realizações pessoais. Títulos acadêmicos são registros de etapas percorridas. Não são certificados de sabedoria. A condição de decano, por sua vez, não representa superioridade sobre ninguém. É apenas a expressão de uma permanência que o calendário tornou visível.
A antiguidade pode conceder precedência. Não concede, por si só, razão.
Se o tempo me ensinou alguma coisa, foi a reconhecer que sempre haverá algo a aprender, alguém capaz de ensinar e alguma certeza merecedora de exame.
Também me ensinou que a vida universitária não se resume às aulas ministradas, aos trabalhos publicados ou às cerimônias acadêmicas.
Ela se compõe de pequenos acontecimentos que raramente encontram lugar nos registros oficiais.
Uma pergunta inesperada. Um aluno que retorna anos depois. Uma discordância respeitosa. Um livro recomendado que encontra seu leitor. Uma conversa ao final da aula. Um antigo estudante que se tornou professor e passou a ensinar aquilo que, um dia, também aprendeu.
São essas as discretas recompensas do magistério.
Não se exibem em diplomas. Não cabem em currículos. Não se medem por homenagens.
Pertencem à dimensão silenciosa da existência.
Aos 41 anos de docência e 50 de vínculo com a Universidade Federal do Maranhão, não tenho a pretensão de apresentar uma obra concluída.
Continuo sendo, em essência, aquele que começou a caminhar pelos corredores da instituição sem saber exatamente até onde eles o conduziriam.
Mudaram os tempos. Mudaram os rostos. Mudaram os instrumentos de ensino. Mudaram as gerações e as linguagens.
Mas não mudou em mim a convicção de que a educação constitui uma das mais dignas formas de resistência à ignorância, à intolerância e ao arbítrio.
Enquanto houver alguém disposto a perguntar e outro disposto a compartilhar o que aprendeu, haverá esperança para a inteligência humana.
E talvez seja precisamente isso que justifique continuar ensinando, mesmo quando o mundo parece menos interessado em compreender do que em condenar.
Não sei quantas aulas ainda me aguardam. Nem quantos novos alunos atravessarão o caminho que me resta percorrer.
Sei apenas que, enquanto houver uma sala de aula e alguma pergunta por responder, haverá razão para prosseguir.
Afinal, não são os anos que conferem sentido ao magistério. É o que fazemos com eles.
Hoje não celebro uma vitória sobre o tempo. Celebro a oportunidade de ter caminhado com ele, entre livros, pessoas, dúvidas e descobertas.
Se algo desejo deixar como testemunho dessa longa convivência com a universidade, não é a imagem de quem soube muito, mas a de quem nunca deixou de reconhecer quanto ainda precisava saber.
Porque o professor não é aquele que chegou primeiro à verdade.
É aquele que, mesmo depois de tantos caminhos percorridos, ainda encontra disposição para procurá-la ao lado de seus alunos.
E, se um dia a minha voz deixar de ecoar nas salas de aula, que ao menos permaneça alguma pergunta que eu tenha ajudado a despertar.
Pois o tempo passa, os títulos envelhecem, os nomes se apagam.
Mas uma ideia transmitida pode encontrar abrigo em outra consciência.
E continuar caminhando.
José Cláudio Pavão Santana
Professor Decano do Curso de Direito da Universidade Federal do Maranhão
4 de novembro de 2026