MEU MESTRE PEDRO LEONEL

Ano 07 – Vol. 07 – n. 09/2019

Acabo de chegar da missa de sétimo dia do Professor Pedro Leonel Pinto de Carvalho, Mestre de muitas gerações.

Esperei até hoje para me manifestar porque a dificuldade de externar o sentimento por uma pessoa querida que se vai, sempre é carregada de emoção. Hoje, na missa, constatei isto e, particularmente, me emocionei e me emociono sempre, pelo convívio que tive com o Dom Pedro, como eu o chamava, conhecedor de sua afeição pela monarquia. Mas isso é uma outra história, sim, como “H”.

Pois bem, fui aluno do meu sempre Mestre Pedro Leonel no Curso de Direito da UFMA. Ali me deparei com os primeiros desafios da teoria e da prática do Processo Civil.

Havia sido aluno do também estimado professor Vinícius Berredo Martins e, a seguir, chegaria às mãos do “terror” do Curso. Não havia alternativa: estudar ou estudar.

No primeiro dia de aula a advertência: “Aqui poucos sobreviverão, alguns ficarão para prova final e raros serão aprovados por média”.

A irreverência de quem deseja desafiar o professor me levou a dizer (achei eu) em voz baixa: Eu serei aprovado. Não deu outra, o Mestre logo indagou:

–  “O que disse o sr. Santana?”.

Assim nasceu – em um desafio – que se consolidou numa amizade sólida e produtiva, a grande admiração.

Final da história? Sim, fui aprovado, mas também, bem mais tarde, fui seu colega de Departamento de Direito, com atenção de quem sempre deseja aprender com quem sempre desejava ensinar.

Fomos colegas do mesmo concurso, o primeiro concurso para ingresso na Carreira de Procurador do Estado, onde ele fora Procurador Geral bem antes, cargo que mais tarde vim a exercer e que, de quando em vez, exigiu que conversássemos com regularidade trocando ideais sobre teses jurídicas.

Lembro que já cursando o Doutorado na PUC-SP vim a São Luís fazer uma palestra na OAB e lá estava o Mestre na plateia. Terminadas as intervenções fui abraça-lo e lhe disse:

“Professor, o que o senhor faz aqui?. O senhor é meu Mestre”. E tive como resposta:

“Ze Cláudio, cada um com seu conhecimento. Vim aprender!”.

Assim era meu Mestre Dom Pedro, ratificando o que uma vez li em Gilberto Freyre: “Um homem chega a ser um mestre, quando descobre que é um eterno aprendiz”.

O tempo passou e meu filho mais novo resolveu estudar Direito e, à época já do estágio, apresentei-lhe encarecendo fosse o mesmo feito no seu escritório. Após uma entrevista de rotina Dom Pedro disse-lhe com a objetividade que lhe era peculiar de como as coisas funcionavam ali, finalizando com um dos gestos mais afetuosos que alguém pode ouvir, determinando ao neto dele, já administrador do escritório:

– “Dispenso a prova de admissão em homenagem ao seu grau de historiador, mas sobretudo ao seu avô e a seu pai, juristas”.

Amigo de meu pai, meu amigo, passou ao bem querer meu filho, por isso, também, minha gratidão tem incomensurável medida.

Muitas e tantas foram minhas ricas experiencias com Dom Pedro, algumas das quais repletas de um bom vinho, com assobios para que nós em sua volta disséssemos qual a música.

A riqueza dessa vida de professor e amigo é vasta, sem que se possa, num momento de emoção, relacionar, senão com pálida brevidade com a saudade que fica.

“Meu besta, não é assim”. “Aprende, meu besta”. Talvez hoje, esses alertas, soem como politicamente incorretos, em uma sociedade convulsionada pela segregação oportunista que ele, também, abominava. Para nós, à época, era motivo de gargalhadas e o compromisso consigo de estudar ainda mais.

Parte o homem, fica seu legado. Deixa em mim a saudade, sentimento que traduz a boa memória de sua passagem pela terra.

Costumo dizer que depois que se passa por um professor ninguém é o mesmo, porque carrega em si um pouco do mestre. Assim é essa profissão sacerdotal, que teve em Dom Pedro um exemplar ímpar, pois jamais se negou a ensinar, tendo como inseguro todo aquele que escondia “o pulo do gato”. Conhecimento foi feito para ser transmitido.

Dom Pedro, meu Mestre, siga em paz. A dor não me permite ser, hoje, prudente com as palavras. São lançadas pelo coração do seu eterno aluno. Em mim fica a saudade, mas o aprendizado que me deste e que transmito em sala de aula é como a pedra do Pedro, o pescador.

Obrigado por tudo meu Mestre.

IMPRENSA E VERDADE

Ano 07 – Vol. 07 – n. 08/2019

O Brasil vive um dos seus piores momentos políticos da história. Sim, porque os tempos revelaram o que o submundo que se construiu silenciosamente como uma revolução cujas armas são silenciosas, mas os danos piores do que qualquer radiação bélica.

Diaria e ininterruptamente lemos pela mídia – não importa a sua forma – versões que viram notícias – de fatos que, logo após, são desmentidos com sintéticas notas que bem se assemelham à prática dos jovens de hoje: Ops! Foi mal!

Biografias são enxovalhadas pelo poder dos teclados, como se fosse lícito – jurídica e eticamente – ultrajar a pessoa humana a despeito da dignidade que todos temos e que deve ser respeitada na integralidade.

Há uma doentia prática nos “jornalistas” – sim, entre aspas – que é de entender que a liberdade de imprensa consiste em dizer o que desejam, sem que ao menos se debrucem sobre a mais primária lição de confirmar o fato para não construir versões.

Com isto digo que esses profissionais não podem ter opinião? Jamais. Todos temos o direito. Mas o que afirmo peremptoriamente é que a honestidade profissional não pode ser vencida pela obsessão da militância pessoal, posto transformar o que deveria informar criticamente em um panfleto de que visível militância político-partidária.

É o que mais se vê no Brasil, sem que essa gente se lembre que um dia jornais publicavam receitas de bolos na primeira página, porque havia uma censura cruel e, muitas vezes, bestial.

A liberdade ou se cuida ou se chora a falta.

Onde foi parar a Universidade? Em que se transformou o curso de Comunicação Social? Qual o horizonte que esperam ter para seus filhos, netos. Afinal, qual o compromisso dessa gente com seu país?

Eu realmente fico indignado com o que leio, porque muito do que se vê é incompatível com a verdade, e não importe a direção que se queira seguir. A mídia, em parte substancial, se transformou numa via de desinformação que guarda no submundo de seus interesses o ódio mais visível em cada linha: a intolerância.

A imprensa ou se autocrítica e arruma sua própria concepção do que seja verdade ou será vítima de sua própria mentira.