MONUMENTOS E MOMENTOS

Ano 08 – Vol. 06 – n. 33/2020

Agora virou prática comum. Bastou o covarde assassinato de um negro, por um policial branco nos Estados Unidos, e cenas de vandalismo irracional se multiplicaram. Monumentos alusivos a acontecimentos históricos, estátuas homenageando figuras, que tiveram reconhecida importância em um determinado momento, passaram a ser alvos de depredação.

E como um espirro na América vira gripe no Brasil, já se assiste a defenestração de figuras que fazem parte da história deste país. Iluminados afirmam que heróis imortalizados, por algum desvio de conduta (sabe-se lá se aí estão os padrões do politicamente correto de hoje) não devem ter mantidas suas estátuas.

Imagine-se João Lisboa sendo derrubado de sua cadeira na praça. Ou, quem sabe, Benedito Leite? O que dizer do porta Gonçalves Dias? Todos homens que tiveram virtudes, mas vícios também.

Calma! Os monumentos lá não foram construídos para homenagear os desvios de conduta. Foram, em determinado momento histórico, criados como registro de um tempo, de uma causa, de um acontecimento.

Estátuas não são edificações de anjos, são a simbolização de homens e mulheres por suas virtudes, ainda que, como qualquer um, possuam vícios como cada um de nós.

Estou aqui, em incipiente reflexão, especulando se a derrubada das estátuas ou destruição de monumentos mudará a realidade social.

Uma coisa é derrubar estátuas, outra, diferente, é derrubar práticas e preconceitos. Por isso o assunto ainda merecerá muito debate, mas já consigo vislumbrar pelo menos uma inquietação. Será que por trás do estímulo de apagar a história não está a manutenção dos mesmos hábitos? Será que não há (a não tanto) velada intenção de eleger novas figuras para estátuas?

Não são as estátuas que fazem perdurar as desigualdades entre os homens, por vícios que os homenageados porventura tenham tido em vida. São os homens vivos, e bem vivos, que usam o discurso ideológico nefasto para inventar heróis e seduzir incautos.

Pretender escrever a história sob o olhar do presente não produzirá qualquer resultado edificante se fechar os olhos ao passado.

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