Ano 08 – Vol. 07 – n. 38/2020
Ratifico o que já afirmei em uma palestra que virou artigo. O Brasil é uma República com alma monárquica. E das piores.
Não que a monarquia do Brasil tenha sido a pior do mundo. Deu-nos a Constituição mais longeva da história. Projetos dela hoje estão sendo executados. Há muitos fatos que mereceriam registro, mas o objetivo, aqui, é outro.
O que importa é o lado da monarquia absoluta, aquele que punha castas sobre os demais. Nisto o Brasil continua no século XVII.
Foi difundido largamente pelas redes sociais que um desembargador de São Paulo, indignado por ter sido autuado por um guarda municipal por não usar máscara, teria sido multado.
Logo a autoridade se municiou do aparelho celular para ligar para outra autoridade, reclamando a audácia de um policial municipal. Como pode, um desembargador ser interrompido do seu exercício físico? Só porque não estava de máscara? Um absurdo!
O fato me lembrou um já falecido professor que teve seu carro abalroado por um outro na ponte do São Francisco, tendo o motorista fugido. Perseguido, alcançado, foi interpelado pela vítima:
– Você bateu no meu carro e não parou!
Respondeu-lhe o condutor, com a arrogância do desembargador em causa:
– Tu sabes com quem tá falando?
O caríssimo professor não teve dúvidas e respondeu-lhe:
– Sei. Deve ser com um grande fdp porque bateu no meu carro e não parou!
Pois é. São Jorge só há um, mas de cavalo o mundo está cheio.
Essa alma autoritária certamente mereceria do Dr Saulo Ramos o mesmo tratamento.
A nossa Constituição afirma que todos são iguais perante a lei. Mas há os que se acham acima dela, porque só alguns podem ser tratados de forma igual. Os que usam toga (e mesmo que não a usassem, o defeito está na alma) são diferentes. Eles podem dizer que crime não é só o que a lei tipifica. Também podem dizer que um Regimento Interno de Tribunal está acima da Constituição.
Não há democracia sem Judiciário forte, dirão alguns. E eu concordo, mas a fortaleza não começa no autoritarismo, este é uma deformidade que mais se aproxima do justiçamento, jamais da justiça.
A alma monárquica do desembargador não consegue compreender que o policial compreendeu bem o que é um sistema republicano, ganhando mal, não tendo todos os privilégios e prerrogativas que a “autoridade” possui. Faltou-lhe, talvez por isso, dar a resposta merecida:
Sim. Sei com quem estou falando. Com um delinquente que está descumprimento uma norma a todos imposta na pandemia e que deveria estar dando exemplo.
Talvez fosse preso e rebaixado.