“ET IMMORTSLITATIS LACRIMAE” – PARA WALDEMIRO E MILSON.

Ano 08 – Vol. 08 – n. 43/2020

Fui abalado pela notícia da morte de dois caríssimos amigos de intensa relação e viva afeição. Quando ainda em tristeza soube da partida do primeiro, logo ao amanhecer do novo dia, eu recebi a notícia da partida do segundo. Falo de Waldemiro Viana e Milson Coutinho.

Com Waldemiro construí uma relação afetiva desde nossos pais, ambos da Academia Maranhense de Letras. De seu pai, minhas referências são da inteligência e agudo raciocínio, informações que papai transmitiu e de escritos e depoimentos que tive. Deve ter sido brilhante, pois Waldemiro só poderia ser filho de alguém muito especial.

Conheci-o não sei bem como e nem quando, mas o convívio, inclusive profissional, fez de mim seu padrinho de casamento, como ele registrava sempre, como o bom humor que lhe era característico: “Benção meu padrinho!”.  Era quase sempre com este gesto que nossos encontros eram iniciados.

Como não poderia deixar de ser, nosso último encontro, dentre tantos, foi na Casa de Antonio Lobo. Lá celebramos lançamentos seus e de tantos intelectuais, como também pranteamos tantos outros. A ele, como ao Milson, não pude prestar uma homenagem pessoal, por essa insolente pandemia que me chegou com algemas, impondo-me a reclusão. Mas a oração vale, e por ambos orei como deve ser feito: no silêncio do quarto.

Sua produção literária foi fértil, como poeta, cronista, romancista, articulista. Muita coisa poderia merecer destaque, mas, sem dúvida, nenhum título se ajusta mais ao momento do que A tara e a toga. Se há no homem a natural liberdade de viver, nele (em alguns, claro) também reside a tara de, com toga, inventar crimes em nome de uma nova prática que é “desviver” a autenticidade humana, cerceando-se a naturalidade em busca de uma conveniência de acomodação e conveniências.

Acomodado Waldemiro não era. Talvez um irrequieto silencioso, posto não se perder na discussão, mas a caneta lhe era amiga fiel. Aliás, o lápis também, e era aí que se agigantava o homem. 

Fica uma saudade imensa, de fazer graúna chorar em roça de arroz.

Mas também tenho a dor no peito pela partida de Milson Coutinho, amigo, colega, parente.

Fosse falar de nossa relação e começaria por Pombeiros, em Portugal. Mas me basta falar em Coelho Neto, onde nossas raízes se encontram.

O parentesco foi herdado, mas a amizade construída em muitos episódios, como o Conselho Seccional da OAB, ou o primeiro concurso da PGE, como membros do TRE que fomos, da tribuna, enquanto ele presidia o TJMA, ou na AMLJ onde me recepcionou na cadeira que leva o nome de meu pai, e cuja biografia Milson destrinchou desde Portugal até chegar a nós. A papai, ao Prof. Mário Meireles e a Milson meu livro “O Pré-constituicionalismo na América” é oferecido, porque foram os que passaram a informação do fato histórico e lançaram o desafio aceito e transformado em tese de doutoramento.

A história contemporânea do Maranhão tem em Milson um verdadeiro notário. Se os Poderes da República já não são compreendidos ou subvertidos no Brasil de hoje, em Milson encontrou o relato histórico fiel, dando mostras de que a Faculdade de Direito de São Luís lhe fora foro de aprendizado seguro. Do jornalismo combativo nos anos de juventude, ao compromissado historiador do Maranhão, Milson é guardado na memória pelo tratamento de sempre: Parente!

Assisti, ainda ontem, ao colega (também imortal) Joaquim Haickel, falar sobre a perda desses gigantes. Das mais precisas concepções sobre imortalidade afirmou que: “A imortalidade é da memória literária que fica”. Deus queira que eu não tenha desdoirado as palavras do colega de Colégio Batista e guardado fidelidade ou ao menos inspiração nelas. A emoção é traiçoeira!

O presente sem referencial de passado não nos guarda futuro. Por isso, é fundamental lembrar desses dois gigantes imortais, para mim queridos, pranteados, por tantas outras razões além das literárias.

Imortalidade e lágrimas. Na imortalidade há lágrimas. Na memória há lembrança. Na partida a esperança.

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