CHORA, BRASIL!

Ano 09 – vol. 08 – n. 59/2021

Bem que o título poderia tratar das conquistas do Brasil nas Olimpíadas, mas não é. Claro, isto não subtrai a importância. De emoção se chora na alegria e na tristeza. Mas o Brasil de hoje não é cenário de alegrias.

Nós temos a nossa competição particular. Não são olímpicas, mas traduzem bem o arremesso de peso, a velocidade de um dardo, os saltos acrobáticos, a força do remo, o saltitar da bola, o apito do árbitro, enfim, nós temos jogos cujo quadro final não será de medalhas, porque todos, sim, todos nós, que não estamos nas pistas e ginásios, queimaremos, juntos, na pira política desses jogos. Só o VAR para nos salvar nesse momento.

Somos frutos de uma república que foi proclamada por um golpe, sem bandeira, sem hino, em uma câmara de vereadores dissolvida após a posse. Tudo isto com a indiferença popular. Ao menos achavam que era apenas um desfile militar. Se somos isto, ou a sobra do que restou, o que será de nós?

Há gente gritando no continente por liberdade e comida. Aqui, há quem deseje mergulhar nisto, para acalentar sonhos juvenis que não conseguiram ser realizados no compasso natural do tempo, por isso cronologicamente retardado e, no momento, inconsequente. Simplesmente brinca-se com o Brasil.

Já é passada a hora de chamar os bombeiros. É preciso apagar o fogo, tomar das mãos de incendiários o pavio e a chama, porque não lhes é cenário agradável viver em paz. Esse tipo de gente oportunista, sempre, necessita de uma bandeira que, no caso, não será erguida em desfile olímpico ou militar. Simplesmente esse tipo de criatura (des) humana, só pensa em poder. Se necessário for, mais “Borbas Gatos”serão incendiados, não importa o custo.

Só não se venham com a ideia de que existe “ditadura do bem e ditadura do mal”. Ditadura é ditadura, venha de onde vier. De esquerda ou de direita. Militar ou civil, não importa. Cuba, Venezuela, Nicarágua, Argentina a passos largos, são retratos da decadência – a América já sofre demais. Não precisamos disso.

Não aprenderam com o tempo? Jamais aprenderão! Não há possibilidade alguma de dar certo um país em que os fundamentos e princípios de sua Constituição sejam diariamente varridos para debaixo dos tapetes persas que vestem as salas dos presépios. A vontade popular que se lixe! Como diziam os coronéis com as cédulas envelopadas em seus currais eleitorais: Deixa de ser burro, caboclo. Tu não podes ver o voto! O voto é secreto, animal!

Há um cenário nefasto. O horizonte é dos mais nublados, porque não há debate possível. O pressuposto é de que sempre a razão está com a autoridade, quando ela só é autoridade porque existe um contrato político assinado: a Constituição. E, no caso do Brasil, esta só existe porque o povo quis. Raiou a liberdade, a mesma que, agora, querem, a qualquer custo, solapar.

Afinal, é razoável condenar quem reclama que seu direito seja garantido por todos os meios possíveis de transparência e segurança? Onde está a proporcionalidade? Onde está a razoabilidade? Onde estão os argumentos reproduzidos em obras jurídicas despejadas nas universidades? Algumas já não adoto na Academia, porque não encontro harmonia entre o escrito e o praticado.

O Brasil, hoje, é apenas um espólio de falcatruas e roubos maior do que todo o Quinto do ouro mandado para Portugal. Maior porque não são só os minerais, mas a alma humana foi desfigurada nesta terra. Falta coragem, sobra arrogância, falta compromisso, sobra prepotência. Falta respeito à vontade popular.

No Brasil de tantas faltas, que parecem não bastar aos que desejam ressuscitar o opróbio, podem faltar dedos aos anéis, mas sobram corsários, aventureiros, oportunistas, que com almas coloniais desejam condenar seu povo à irrelevante condição de súditos.

Chora, Brasil. Antes que te roubem as lágrimas.

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