A VERDADE E A VERSÃO

Ano 10 – vol. 05 – n. 34/2022

Vivemos uma época tenebrosa. Não é preciso ser dotado de refinada intelectualidade para perceber. A beligerância é um sentimento aflorado mundialmente, estimulado por braços e mãos que sabem bem o que querem, mas normalmente escondem seus propósitos em discursos que possuem a consistência da água – sim, é recurso de redação!

Foi Umberto Eco (e não Bobbio como ouvi dizer) que em cerimônia em que recebia o título de Doutor “honoris Causa” (2015) na Universidade de Torino, afirmou que “a internet deu voz a uma legião de imbecis”.

De fato, eles se multiplicam em velocidade “terabáitica”, porque sempre existiram, embora só alguns conseguissem se manifestar. Não tinham playgrounds e é nisto que se transformou a internet para muitos. Notem, muitos, não todos, embora alguns devessem permanecer calados, porque a verdade histórica os desmente diariamente.

Por óbvio que as redes sociais têm de tudo, mas deve permanecer exatamente assim, porque, no estado de direito, existem instrumentos legais para punir os que não conseguem se comportar dentro daquele limite que sempre nos lembra o Apostolo Paulo: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. 1 Coríntios.

É fato que a vida em sociedade requer urbanidade, mas a separação do joio e do trigo não deve ser feita com a espada sem a balança. Traçar limites legislativos sobre o que se pode ou não dizer é o mesmo que estabelecer censura sobre ideias e pensamentos. Quando isso é feito por censores anônimos das redes sociais, por critérios de duvidosa procedência, então, a coisa é mais grave.

Fique certo o leitor: não defendo ofensas institucionais; mas também tenha a certeza: o homem é naturalmente livre. Tudo tem limite e o limite, aqui, me faz escrever pela censura imposta a uma colega de magistério ao publicar uma verdade. Verdade histórica. Está nos livros. Não se pode apagar por censores que estão por trás de carteiras e biombos, sem qualquer intimidade com um livro de história.

Não há, na atitude das redes sociais, nenhum parâmetro lógico ou jurídico, embora essa onda “neo-marxista da sociedade contemporânea de hoje em dia” deseje ressignificar tudo, mudar conceitos e subverter fatos. Jamais conseguirão. São criminosos como todos aqueles que em todas as fases da história, da revolucionária à pós moderna, mutilaram homens e mulheres, subjugando a verdade, o direito de pensar e de manifestar ideias, ainda que aos domingos se prostrem de joelhos e invoquem o perdão divino.

Fato é fato. Verdade é verde. Fato mentiroso, ou, “fakenews”, não passa de fofoca, que deve ser desmentida por argumentos, com métodos racionais e legislativos, porque é assim que a sociedade contemporânea, a mesma que contempla imbecis ou não, deve se manter, com o direito de expressar opiniões. Como disse, se desbordarem, que sejam punidos, mas com base na lei, no Direito e, se possível, na justiça que não se traduz nesse neoconstitucionalismo farsante dos dias de hoje.

Nelson Mandela, a quem reservo admiração como símbolo de político, em sua autobiografia, no último parágrafo da obra, fala sobre o caminho percorrido até a liberdade. Ao chegar ao monte para observar tudo o que transcorreu é cirúrgico ao afirmar: “Mas posso descansar apenas um instante, pois com a liberdade vêm responsabilidades, e não me atrevo em me demorar, pois minha longa caminhada não terminou”.

Os que não lutam por sua liberdade serão os primeiros a entrar na fila do crematório das ideias, pois livros foram queimados, cristais foram quebrados e, agora, algumas redes sociais, criando versões ressignificadas que não passam de deposição contra a verdade, transformaram-se em fornos crematórios dos que, por transmitirem fatos históricos, são suspensos, alijados, cancelados.

Que a caminhada continue. Que a verdade prevaleça sempre. Que, mesmo que tardia, ela vença!

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