O APEADOURO EM SAUDADE

Ano 12 – vol. 02 – n. 06/2024

https://doi.org/10.5281/zenodo.10934144

Hoje eu voltei ao Apeadouro. Parei o carro, olhei casas, poucas árvores, carros, ônibus, caminhões, mas quase ninguém na rua. 

Mergulhei profundamente na lembrança da minha infância. Carnaval, lá estaríamos nos reunindo, todos, de macacões fornecidos pela Cia Moraes. Iríamos ao corso no caminhão com bastante água. A noite seria Jaguarema, Litero ou Casino. 

Hoje senti em lembranças a sensação mais bela e pura das mãos dadas, dos beijos roubados, das serenatas. 

Hoje me vesti do avesso, não de fofão, mas do avesso, onde repousa o lado puro da memória. Sem pecado, ao menos daqueles que depois cometi. 

Hoje eu me vesti de mim mesmo como quem precisasse só do tempo para constatar que, hoje, sou lido em braille, mas com histórias e estórias, sem versões. 

Hoje eu voltei ao Apeadouro. Encontrei amigos – na memória – e sorri sozinho, das lembrancas, do tempo que passou por mim. 

Por mais que a paisagem seja apagada pelo concreto insano em mim está a digital do Apeadouro. E nada há de apagar. 

Assim, entre lembranças e saudades eu me senti apeado. Senti um vazio imenso. 

Hoje eu estive no Apeadouro, onde continuo apeado para sempre. 

Por mais que a eternidade se aproxime, ainda assim, resta em mim a lembrança que alguém, um dia desses dirá no carnaval:

Ele hoje esteve no Apeadouro, onde tudo começou como um conto, virou um pranto, mas continuará sendo o Apeadouro, onde o sol nasceu e se pôs. 

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