Ano 12 – Vol. 05 – N. 23/2024
https://doi.org/10.5281/zenodo.13350646
Soube, com pesar, do falecimento do desembargador José Pires da Fonseca.
Acho que nosso último encontro foi num supermercado, há alguns anos, quando me abraçou e disse à sua companheira eterna: Este aqui tem o pé na frescura…, na terra santa.
Apaixonado por sua terra, Cururupu, a ela sempre se referia como terra santa ou frescura. Era uma relação impressionante com a terra natal, fato que vim ter conhecimento ao longo do nosso convívio.
Nosso primeiro encontro, lembro, foi em uma sala de audiência. Eu, ainda advogado iniciante; ele, como juiz da vara de família, me fez algumas observações na petição inicial, que recebi como conselhos, porque na vida só aprendem aqueles que têm disposição. Sempre temos a aprender.
No decorrer da audiência, ao ser mencionado meu nome como advogado da cliente, ele me indagou:
– Não me diga que você é filho do dr. José Vera-Cruz Santana e neto do meu conterrâneo Newton Pavão?!
Com minha confirmação ali nasceu um carinho mútuo porque passou a me fazer relatos de acontecidos na – pela primeira vez ouvi – terra santa.
À época habitual frequentador do Tribunal de Justiça, tive a honra de acompanhar sua investidura e nosso convívio se estreitou. Muitos foram os trabalhos que fiz para aquela Corte.
Passados os anos fui escolhido pelo TJMA e nomeado como jurista, por dois biênios consecutivos, para o TREMA, onde tive a oportunidade de encontrar com o desembargador Pires da Fonseca, então presidente, tendo, inclusive, em sua companhia e de vários outros magistrados, viajado para Blumenau, onde foi apresentado o sistema de votação eletrônica como grande novidade. Foram dias memoráveis.
Conviver no TREMA, além de ser uma tarefa gratificante, embora exaustiva, foi uma das maiores escolas de minha vida, porque sempre encontrei nele um referencial de acolhimento e carinho, pelo pé – segundo ele – que eu tenho na terra santa, também por ele nominada de frescura.
Há uma característica em nós mortais que é destacar qualidades dos outros quando partem para o Reino da Glória. Dizer isso do desembargador Pires da Fonseca soa como redundância, porque até na sua inquietação e verve políticas – não se pode negar – ele era titular de habilidade singular.
Quando os homens passam pelos cargos públicos e não conseguem se desprender das funções demonstram escassez de discernimento. Mas quando os cargos passam pelos homens e a sobriedade permanecesse é quando se constata a grandeza do homem, maior do que o cargo, melhor do que os comuns.
Nesta despedida confesso. Ele tentou me seduzir para ingresso na carreira da magistratura por mais de uma vez, mas meu compromisso prematuro com a Academia – e já procurador do estado – me fez ter, desde cedo, a clareza de que na UFMA, onde comecei como assistente administrativo substituto, um dia seria professor. Hoje, pontuo com orgulho, professor titular.
Tenho certeza de que a verdadeira terra santa colheu desde ontem o amigo Pires da Fonseca. Hoje, nos braços do Pai, seguramente, está sentindo a frescura da eternidade, provavelmente articulando uma sessão com seus pares que lá estão, ao menos os que, como ele, tiveram senso de justiça.
Fica meu abraço à família. Fica minha lembrança do amigo. Mas fica, sobretudo, a saudade de quem pôs, por homenagem, meus pés em Cururupu, onde – segundo ele – as praias são mais belas. Deve ser, porque meu avô Pavão compôs uma música em que um dos versos é:
“Caoca, minha praia dourada….”.