METÁFORA E MENTIRA – LINGUAGEM E VIOLÊNCIA VERBAL NAS REDES SOCIAIS

Ano 13 – vol. 07 – n. 50/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.15857840

As redes sociais são, sem dúvida, uma realidade à qual todos devemos nos adaptar. Ela dá alcance a quem a ela tiver acesso, e, assim, se multiplicam as maneiras e os modos dos indivíduos se pronunciarem.

Não sou dos que acreditam que a internet deu voz aos imbecis como se eles tivessem surgido com ela. Eles sempre estiverem por aí mesmo quando não existiam as redes sociais. O que mudou foi a liberdade posta à disposição de quem consiga ter acesso ao mundo virtual, e com ela a perda do protagonismo de quem antes monopolizava a informação.

Não se duvide. Os meios tradicionais de informação também estão repletos de imbecis, com modos e vícios que ultrajam até o bom senso.

Mas não se pode ignorar que em tempos de redes sociais e discursos instantâneos, a linguagem ganhou agilidade e, vez por outra, perdeu substância. É o conhecimento pela rama, como costumava falar meu pai.

Uma das vítimas dessa pressa comunicacional é a metáfora. Frequentemente confundida com exagero, mentira ou até difamação, a metáfora tem sido mal utilizada como escudo para justificar ofensas, ataques pessoais e discursos odiosos. Neste cenário, torna-se urgente refletir: quando a metáfora deixa de ser um recurso poético e passa a ser um instrumento de agressão?

A metáfora é uma figura de linguagem fundamental na construção do pensamento simbólico. Seu uso permite expressar ideias complexas de forma criativa, ao estabelecer uma relação implícita entre dois elementos distintos.

Ao afirmar que “o tempo é um rio” não pretendo enganar ninguém; proponho apenas afirmar que o tempo, como o rio, segue continuamente.

O valor epistemológico da metáfora já é encontrada na filosofia clássica, não como singelo adereço do discurso, mas como meio de ampliar os horizontes do pensamento. Contudo, para que essa potência simbólica funcione, é indispensável que o receptor compreenda o contexto e a intenção comunicativa.

E quando há o mau uso da metáfora? Bom, há quem fale em álibi para a violência verbal; e é aí que mora o perigo.

Nas redes sociais temos assistido significativo crescimento no uso deturpado da metáfora como desculpa para disseminar ódio. Frases como “isso foi só uma metáfora” são invocadas, muitas vezes, para encobrir discursos de violência, preconceito ou desinformação.

É essencial compreender que a metáfora pressupõe inteligência comunicativa e respeito. Não pode servir como biombo para doentes que encontram nas redes sociais uma espécie de divã para suas psicoses e frustrações.

Quando um indivíduo diz, por exemplo, que determinado grupo social ou pessoa deveriam ser exterminados ou guilhotinados, e depois tenta justificar que o fez como metáfora, ele não está fazendo literatura — está normalizando o discurso de ódio. A linha entre linguagem figurada e violência simbólica não é tênue: ela está bem demarcada pelo princípio da dignidade humana.

Não há espaço nem mesmo para a ignorância sobre o que seja uma metáfora, posto que ela não serve como justificativa para agressões, sendo impertinente dizer que “não sabia” ou que “estava usando uma metáfora”. Nada disso imuniza ou exonera alguém da responsabilidade ética e jurídica pelo que foi dito. Nas redes, onde a comunicação é pública e permanente, cada palavra importa. As consequências dos discursos não são apagadas pela desculpa da ignorância.

Nunca é demasiado lembrar que a liberdade de expressão não é sinônimo de liberdade de agressão a quem quer que seja. Apesar de garantido constitucionalmente como direito fundamental, a liberdade de expressão guarda limites que envolvem o direito à honra, à dignidade e à integridade moral do outro. Metáforas ofensivas, por mais camufladas que estejam, não são manifestações de liberdade, mas tentativas de mascarar a agressão com verniz retórico.

O bom uso da metáfora é rico para iluminar o pensamento. Ao contrário, o mau uso edifica o obscurantismo, velando a verdade. A mentira, por sua vez, é a distorção deliberada da realidade com intenção de enganar. Quando alguém utiliza linguagem figurada para criar um falso sentido com o propósito de atacar, manipular ou humilhar, está mentindo, não metaforizando.

Em tempos como os que vivemos dizer que educar seria a melhor alternativa para não se multiplicar, ainda mais, o discurso de ódio, a mentira, a agressão e o vilipêndio da dignidade da pessoa humana, pode parecer utopia de minha parte. Mas ainda prefiro essa alternativa à censura, fonte de autoritarismo tão bruto e insano quanto a mentira.

Precisamos urgentemente de uma formação crítica para o uso da linguagem, especialmente em ambientes digitais. Saber o que é metáfora, ironia, hipérbole ou mentira não é preciosismo gramatical — é uma questão de cidadania e responsabilidade social.

A metáfora é uma ponte. A mentira, uma armadilha. Saber distingui-las é fundamental para que o discurso nas redes não se transforme em um campo de batalha verbal, mas em espaço de trocas simbólicas e construção democrática. E não será inventando pronomes ou forçando esquisitices vocabulares que alcançaremos evolução. Muito menos ainda com a censura de ideias, coisa reservada a ditaduras.

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