Ano 13 – vol. 11 – n. 102/2025
https://doi.org/10.5281/zenodo.17582098
Tempos tempestuosos. Sombrios mesmo. É o que se pode dizer do cenário do Brasil, particularmente quando testemunhamos as idiossincrasias expostas pelos gestos de arrogância humana, biombo da falta de sabedoria ou do excesso de prepotência.
Desfilam em cortejo a arrogância de mãos dadas com a superficialidade, abraçadas com a vaidade intelectual em cortejo com a doutrinação se passando por sabedoria.
De tudo um pouco se colhe, renovando a parábola do joio e do trigo, servindo à imaginação a construção de um cenário, posto que pobre possa parecer, ao menos margeia o sentimento que invade a reflexão.
Havia, no alto de um monte de pedra e vaidade, um homem que acreditava falar por si mesmo. Vestia toga negra, empunhava gestos largos e lançava palavras graves ao vento — palavras que soavam como sentenças, mas que, na verdade, eram ecos. Era um ventríloquo. E o monte, seu boneco.
Do alto, o homem acreditava mover as bocas da planície: os que lá embaixo o escutavam viam nele um oráculo de sabedoria. Mas as palavras não nasciam de sua mente; vinham de um outro — invisível, porém presente — que lhe soprava ao ouvido o script da arrogância e da obediência. O povo, encantado pela toga, confundia a voz do monte com a voz do justo. A cada frase, um silêncio reverente; a cada pausa, uma reverência servil.
Certo dia, um jovem aprendiz — desses que ainda não perderam o gosto pela dúvida — aproximou-se e perguntou:
— Mestre, o que é verdade?
O ventríloquo sorriu com desdém e respondeu:
— Verdade é aquilo que eu digo.
O monte estremeceu. Pela primeira vez, percebeu-se falado por quem nada sabia. E num rugido que misturava raiva e cansaço, devolveu ao homem a sua própria voz:
— Não és sábio, és apenas eco!
O som reverberou pelos vales, e o ventríloquo sentiu a própria boca se calar. A toga, pesada como consciência, caiu-lhe dos ombros. E ali, despido da fantasia de grandeza, percebeu que não valia metade do que imaginava.
Enquanto descia o monte, ouviu o murmúrio do vento, agora livre de ecos:
“Os sábios duvidam de si; os arrogantes duvidam do mundo.”
E o boneco de pedra, que outrora repetia o nada, descansou enfim em silêncio — o silêncio das vozes que se libertam do ventriloquismo alheio.