CUBA: DA UTOPIA ROMANTIZADA AO COLAPSO HUMANO

Ano 14 – vol. 05 – n. 65/2025

https://doi.org/10.5281/zenodo.20270889

“Revolução ou morte!”

Durante décadas, a frase de Fidel Castro ecoou como palavra de ordem de uma experiência política apresentada ao mundo como símbolo de resistência, soberania e justiça social.

Hoje, porém, outra expressão rompe as ruas, os becos escuros e o silêncio imposto em Cuba:

“Liberdade e Vida!”

Não mais o culto sacrificial da revolução permanente. Não mais a glorificação da privação como virtude ideológica. O que o povo cubano passou a reivindicar é algo muito mais simples — e infinitamente mais humano: o direito de viver sem medo.

Durante décadas, Cuba foi romantizada por intelectuais, artistas, militantes e setores da imprensa internacional como uma espécie de utopia caribenha cercada pelo imperialismo. Camisetas estampadas com o rosto de Che Guevara tornaram-se adereços culturais. Discursos revolucionários passaram a frequentar universidades, festivais e círculos políticos como se a experiência cubana fosse um modelo moral superior ao restante do continente.

O problema é que propaganda não alimenta pessoas.

A realidade cubana contemporânea expõe um país devastado economicamente, socialmente e institucionalmente. Falta comida. Falta energia elétrica. Falta medicamento. Falta liberdade. E, sobretudo, falta esperança.

As manifestações populares ocorridas nos últimos anos revelaram ao mundo algo que muitos tentaram ocultar por décadas: a população cubana já não deseja heroísmo revolucionário; deseja normalidade humana. Deseja o direito de discordar sem ser presa. Deseja trabalhar sem depender integralmente do Estado. Deseja imprensa livre, eleições livres e futuro livre.

A famosa palavra de ordem revolucionária — “Revolução ou morte” — acabou transformando-se numa espécie de confissão involuntária. Porque quando regimes políticos passam a exigir sacrifício permanente da população para justificar sua própria sobrevivência, deixam de ser projetos de emancipação e passam a funcionar como estruturas de opressão.

A crise cubana já ultrapassou os limites do debate ideológico. Trata-se da maior tragédia humanitária das Américas contemporâneas.

E é impossível ignorar a responsabilidade internacional nesse processo. Diversos governos, organismos, partidos políticos e aliados estratégicos contribuíram direta ou indiretamente para sustentar economicamente e legitimar diplomaticamente o regime cubano ao longo das décadas. Muitos preferiram fechar os olhos para perseguições políticas, censura, encarceramentos arbitrários e supressão de liberdades fundamentais apenas porque o autoritarismo vinha embalado em retórica revolucionária.

Criou-se uma indulgência seletiva profundamente imoral: certas ditaduras seriam condenáveis; outras mereceriam compreensão histórica.

Mas não existe ditadura humanitária.

Nenhum embargo econômico explica sozinho a ausência de eleições livres. Nenhum bloqueio internacional obriga perseguições políticas ou censura à imprensa. Nenhuma tensão geopolítica justifica a perpetuação hereditária do poder em torno de uma elite estatal fechada sobre si mesma.

A deterioração de Cuba é consequência também de um modelo político incapaz de conviver com pluralismo, alternância de poder, liberdade econômica e autonomia individual.

A reconstrução da ilha exigirá muito mais do que reformas superficiais. Será necessário restaurar instituições democráticas, garantir proteção efetiva aos direitos humanos, assegurar liberdade política plena e promover responsabilização jurídica daqueles que conscientemente participaram de mecanismos repressivos do Estado — sempre mediante devido processo legal e observância das garantias fundamentais.

Nesse contexto, os Estados Unidos naturalmente surgem como ator relevante em eventual processo de estabilização e reconstrução institucional hemisférica, sobretudo por sua capacidade econômica, estabilidade institucional e influência continental. Mas qualquer participação internacional legítima deve ter como centro não interesses ideológicos ou estratégicos, e sim a recuperação da dignidade do próprio povo cubano.

Ao final, talvez a história registre um detalhe cruel.

A revolução que prometia libertar homens terminou produzindo filas, exílio, silêncio e medo.

E foi justamente o povo — aquele em nome de quem tudo dizia ser feito — quem respondeu com a frase mais devastadora possível:

“Liberdade e Vida.”

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