A SAUDADE DE UMA CAMISA

Ano 14 – vol. 06 – n. 75/2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.20689985


Há muitos anos li uma frase que jamais esqueci: saudade é aquilo que fica daquilo que não ficou.

Ontem senti saudade.

Senti muita saudade.

Não se trata daquela nostalgia ingênua que deseja viver eternamente no passado, como quem lança âncora ao mar para impedir o movimento das águas. O passado não existe para aprisionar o presente. Existe para servir de parâmetro. É nele que encontramos os elementos que nos permitem avaliar se houve progresso, regressão ou simples estagnação.

E foi exatamente isso que ocorreu ao assistir à Seleção Brasileira diante do Marrocos.

Antes que alguém interprete equivocadamente estas linhas, faço questão de esclarecer: não há aqui qualquer desrespeito ao adversário. O futebol marroquino evoluiu, tornou-se competitivo, organizado e disciplinado. Sua campanha recente em competições internacionais demonstrou isso de maneira inequívoca. O problema não foi o Marrocos.

O problema foi o Brasil.

Ou, mais precisamente, aquilo que o Brasil deixou de ser.

Aprendi ao longo da vida que uma das formas mais inteligentes de aprender consiste em observar os erros dos outros. Nem sempre, porém, essa lição é assimilada. Há ocasiões em que a insistência nos próprios equívocos parece uma escolha consciente.

O que se viu em campo foi um conjunto de jogadores incapazes de executar com eficiência tarefas simples. Não falo de esquemas revolucionários nem de fórmulas mágicas. Refiro-me ao básico: movimentação, objetividade, ocupação de espaços, intensidade, comprometimento coletivo e conclusão das jogadas.

O técnico da Seleção possui currículo suficiente para dispensar apresentações. Trata-se de um profissional vitorioso, respeitado e experiente. Todavia, até os melhores treinadores encontram limites. Nenhuma estratégia é capaz de compensar indefinidamente a ausência de talento, de comprometimento ou de compreensão do jogo por parte daqueles encarregados de executá-la.

O futebol continua sendo uma atividade coletiva. A genialidade do treinador termina exatamente onde começa a responsabilidade dos jogadores.

E é justamente aí que mora a minha saudade.

Saudade de um tempo em que vestir a camisa da Seleção representava algo maior do que contratos publicitários, penteados cuidadosamente produzidos ou aparições em redes sociais.

Saudade de uma época em que a convocação era recebida quase como uma condecoração nacional.

Saudade de um tempo em que o talento aparecia naturalmente, sem necessidade de campanhas de marketing para convencer o torcedor de sua existência.

Havia erros? Claro que havia.

Havia desentendimentos? Sem dúvida.

Mas havia também algo que parece cada vez mais raro: fome de vitória.

Aqueles jogadores podiam falhar, mas jamais permitiam que alguém duvidasse de sua disposição para vencer.

O futebol brasileiro construiu sua identidade mundial sobre fundamentos simples: criatividade, técnica, improvisação, alegria e objetividade. Era uma combinação quase artística. O espetáculo terminava e permanecia a sensação de que se havia assistido a algo especial.

Hoje, infelizmente, essa sensação tornou-se exceção.

O que se observa frequentemente é uma equipe formada por atletas extraordinariamente valorizados economicamente, mas que raramente conseguem transformar esse valor financeiro em superioridade técnica dentro das quatro linhas.

Talvez existam razões estruturais para isso. Talvez o futebol tenha sido capturado por interesses econômicos gigantescos que transformaram o espetáculo em produto e o jogador em ativo financeiro. Talvez as categorias de base estejam produzindo celebridades antes de formar atletas completos.

Talvez.

Mas o torcedor não assiste ao jogo para analisar planilhas.

O torcedor quer ver futebol.

Quer ver entrega.

Quer ver paixão.

Quer ver objetividade.

Quer ver uma equipe capaz de fazer a bola obedecer ao propósito para o qual foi criada: chegar ao gol.

Ontem, porém, vi pouco disso.

Vi uma equipe sem identidade clara.

Vi uma equipe sem objetividade.

Vi uma equipe sem a capacidade de transformar posse de bola em perigo real.

Vi uma equipe que, em muitos momentos, parecia mais preocupada em exibir movimentos do que em produzir resultados.

E foi então que a saudade apareceu.

Saudade do tempo em que aguardávamos o apito final apenas para descobrir por quantos gols venceríamos.

Saudade do tempo em que a confiança era consequência natural do talento.

Saudade do tempo em que estratégia, técnica, objetividade e determinação caminhavam juntas.

Não senti saudade de um jogador específico.

Não senti saudade de um treinador específico.

Senti saudade de uma identidade.

Daquela identidade que transformou uma seleção de futebol em patrimônio cultural de um país inteiro.

Talvez ela volte.

O futebol é pródigo em ciclos e surpresas.

Mas, enquanto não retorna, resta ao torcedor conviver com uma sensação amarga: a de que a camisa mais respeitada da história do futebol mundial continua presente, mas já não encontra com a mesma frequência homens capazes de honrá-la.

Queira eu estar errado.

Mas os gramados costumam ser menos generosos que os contos de fadas.

Deixe uma resposta