ENTRE A MITOLOGIA, A IDOLATRIA E A REALIDADE

Vol. 14 – N. 26 – outubro 2026

https://doi.org/10.5281/zenodo.23502801

Palavras-chave: Mitologia. Idolatria. Instituições. Personalismo. Democracia. República.

A mitologia inventa os deuses. A idolatria lhes constrói os altares. A realidade, indiferente às duas, encarrega-se de revelar que, por trás das vestes divinas, sempre estiveram homens comuns, com todas as suas virtudes, misérias e contradições.

Talvez uma das maiores tragédias das sociedades contemporâneas seja a insistência em transformar homens em divindades e instituições em seus templos particulares.

Não se trata de novidade histórica. Desde os tempos mais remotos, a humanidade demonstrou uma extraordinária inclinação para fabricar heróis, cultuar personalidades e atribuir a determinados indivíduos qualidades sobrenaturais. O que antes se explicava pela mitologia, hoje se reproduz pela propaganda, pela manipulação da informação e, sobretudo, pela incapacidade de distinguir a autoridade institucional da vaidade pessoal.

Mudaram os altares. Permaneceram os adoradores.

A mitologia, enquanto construção simbólica, tem seu lugar na história da civilização. A idolatria, enquanto manifestação de fé, pertence ao domínio das convicções individuais. Mas quando ambas invadem a organização política do Estado, transformam-se em instrumentos perigosos de deformação institucional.

Afinal, uma coisa é reconhecer a importância de um homem. Outra, absolutamente distinta, é imaginar que a importância de uma instituição decorra da existência desse homem.

Não decorre.

As instituições precedem os seus ocupantes e devem sobreviver a todos eles. Essa é uma das mais elementares exigências de qualquer organização política que pretenda ser reconhecida como civilizada.

A República não foi concebida para produzir monarcas temporários, muito menos divindades togadas, parlamentares ungidos ou governantes messiânicos.

Foi concebida, precisamente, para impedir que o poder público se confundisse com a vontade particular de quem o exerce.

Entretanto, assistimos à consolidação de uma cultura política na qual a reverência aos cargos vai sendo substituída pela adoração aos seus ocupantes. E o que deveria ser respeito institucional converte-se em submissão pessoal.

Não faltam exemplos.

Homens que deveriam ser reconhecidos pelo cumprimento de seus deveres passam a ser festejados como salvadores da pátria. Atos ordinários de competência funcional são anunciados como manifestações extraordinárias de coragem. O cumprimento da lei transforma-se em heroísmo. E a observância de obrigações constitucionais é apresentada como favor prestado à sociedade.

Ora, desde quando cumprir o dever constitui virtude excepcional?

Um magistrado não merece veneração por julgar. Um parlamentar não se torna herói por legislar. Um governante não deve receber incenso por administrar. Todos exercem funções públicas para as quais foram investidos segundo regras previamente estabelecidas.

Podem merecer reconhecimento por serviços relevantes, competência e integridade. Jamais imunidade à crítica ou dispensa de responsabilidade.

A diferença parece simples. Mas sua incompreensão tem produzido consequências devastadoras.

O culto à personalidade costuma ser acompanhado de um fenômeno ainda mais perverso: a transformação da crítica em heresia.

Quem questiona o ídolo passa a ser tratado como inimigo da instituição. Quem discorda de uma decisão judicial é acusado de hostilidade à Justiça. Quem critica um governante é apresentado como adversário do Estado. Quem exige responsabilidade de uma autoridade passa a ser considerado ameaça à estabilidade democrática.

Inverte-se, assim, a própria lógica republicana.

Não é o cidadão quem deve fidelidade pessoal aos ocupantes do poder. São estes que devem fidelidade à ordem constitucional que legitima suas funções.

A democracia não exige devoção. Exige responsabilidade.

E responsabilidade não combina com infalibilidade.

O problema torna-se particularmente grave quando os próprios ocupantes das instituições começam a acreditar na mitologia construída em torno de suas pessoas.

O elogio excessivo é um veneno de ação lenta. Primeiro alimenta a vaidade. Depois compromete a prudência. Finalmente, convence o homenageado de que suas convicções pessoais são superiores às regras que deveria observar.

Nesse estágio, já não basta exercer a autoridade. É necessário exibi-la.

O cargo deixa de ser encargo para transformar-se em espetáculo.

Multiplicam-se discursos, solenidades, homenagens, manifestações de apoio e declarações grandiloquentes. A liturgia institucional cede espaço à encenação pessoal. O silêncio prudente é substituído pela eloquência desnecessária. A discrição, que deveria acompanhar determinadas funções públicas, passa a ser confundida com fraqueza.

E, como todo espetáculo exige plateia, surgem os aduladores.

Há os que aplaudem por convicção. Outros, por conveniência. Alguns, por medo. Muitos, pela esperança de participar das vantagens proporcionadas pela proximidade com o poder.

É nesse ambiente que a bajulação deixa de ser defeito individual para adquirir dimensão institucional.

Aos poucos, já não se pergunta se determinada conduta é constitucional, legal, ética ou moralmente aceitável. Pergunta-se apenas quem a praticou.

Se foi o adversário, condena-se. Se foi o ídolo, justifica-se.

A legalidade passa a depender da identidade do agente. A moralidade torna-se seletiva. A indignação obedece às conveniências. E a coerência, essa velha senhora cada vez menos convidada aos banquetes do poder, termina abandonada à própria sorte.

Não há República que resista indefinidamente a semelhante inversão de valores.

A Constituição da República não consagra homens providenciais. Organiza poderes, distribui competências, estabelece limites e institui mecanismos de responsabilidade.

Nenhuma autoridade recebe dela uma certidão de infalibilidade.

O Presidente da República não é a República. O Congresso Nacional não se confunde com seus parlamentares. O Poder Judiciário não se resume aos seus magistrados. E o Supremo Tribunal Federal não é propriedade intelectual, moral ou política de qualquer de seus integrantes.

São instituições permanentes, ainda que seus ocupantes sejam transitórios.

Essa distinção não diminui a autoridade. Ao contrário, preserva sua legitimidade.

O respeito às instituições não pode ser confundido com a aceitação incondicional dos atos praticados em seu nome. Respeitar o Poder Judiciário não significa concordar com todas as decisões judiciais. Respeitar o Legislativo não impõe silêncio diante de seus desvios. Respeitar o Executivo não obriga o cidadão a aplaudir seus governantes.

É justamente porque as instituições merecem respeito que seus integrantes devem permanecer sujeitos à crítica, à fiscalização e à responsabilização.

O verdadeiro compromisso institucional manifesta-se, muitas vezes, na coragem de apontar os erros daqueles que ocupam posições de autoridade.

Não existe democracia sem dissenso. Tampouco existe República onde a discordância seja interpretada como sacrilégio.

A idolatria política, contudo, tem horror à divergência. Necessita de unanimidades artificiais, aplausos permanentes e narrativas que convertam qualquer contestação em ameaça.

Seu mecanismo é conhecido: primeiro constrói-se o mito; depois, apresenta-se o mito como indispensável; finalmente, confunde-se sua permanência com a própria sobrevivência da instituição.

Chega-se, então, ao absurdo de imaginar que a estabilidade do Estado depende da preservação da reputação de determinados indivíduos, ainda que para isso seja necessário relativizar princípios, flexibilizar regras ou silenciar críticas.

É a inversão completa da ordem republicana.

As instituições não existem para proteger a biografia de seus ocupantes. Os ocupantes é que têm o dever de preservar a integridade das instituições.

Quando a reputação pessoal passa a justificar o sacrifício das regras institucionais, já não se está diante de uma democracia amadurecida, mas de uma organização política contaminada pelo personalismo.

E o personalismo, qualquer que seja a roupagem ideológica que utilize, constitui uma das mais antigas enfermidades da vida pública.

Não importa se o ídolo veste farda, toga, terno ou qualquer outra indumentária do poder. A natureza do fenômeno permanece a mesma.

A adoração dispensa argumentos. A razão os exige.

O adorador não examina. Justifica.

Não confronta os fatos. Reinterpreta-os conforme a conveniência de sua devoção.

Não exige coerência. Exige fidelidade.

É por isso que a idolatria se revela tão incompatível com a consciência republicana. Ela substitui a impessoalidade pela preferência, a responsabilidade pela indulgência e a igualdade pela concessão de privilégios.

E talvez o aspecto mais preocupante desse processo seja sua capacidade de contaminar até mesmo pessoas instruídas, cultas e formalmente comprometidas com os valores democráticos.

A instrução não imuniza contra a servidão intelectual.

Há quem conheça profundamente as instituições e, ainda assim, se disponha a sacrificá-las para preservar o prestígio de seus personagens prediletos.

Há quem proclame a supremacia da Constituição e silencie quando suas disposições se tornam inconvenientes aos interesses do grupo que admira.

Há quem defenda a separação dos Poderes apenas enquanto ela não contrariar a vontade daquele a quem presta reverência.

Não se trata, nesses casos, de desconhecimento. Trata-se de uma escolha.

E escolhas têm consequências.

A história oferece exemplos suficientes de sociedades que confundiram lideranças com destinos nacionais e terminaram pagando elevado preço por essa confusão.

O culto à personalidade nunca foi garantia de estabilidade institucional. Ao contrário, frequentemente representou o primeiro passo para sua deterioração.

Homens passam. Instituições devem permanecer.

A frase, embora aparentemente banal, contém uma exigência civilizatória que ainda não conseguimos assimilar inteiramente.

Nenhuma sociedade alcança maturidade política enquanto necessitar de salvadores permanentes. Nenhuma democracia se consolida quando a autoridade de suas instituições depende do carisma de seus integrantes. Nenhuma República será verdadeiramente republicana enquanto o cidadão se comportar como súdito e o agente público imaginar-se soberano.

A soberania popular não se transfere à vaidade dos governantes.

Muito menos à presunção de superioridade moral daqueles que, por circunstâncias políticas, jurídicas ou administrativas, foram investidos em posições de poder.

A autoridade legítima não necessita de incenso. Necessita de limites.

O respeito não se impõe pela intimidação, nem se conquista pela propaganda. Constrói-se pela coerência entre o dever assumido e a conduta praticada.

É possível admirar homens públicos. É legítimo reconhecer trajetórias exemplares. É justo homenagear quem tenha prestado serviços relevantes à sociedade.

Mas admirar não é idolatrar.

Reconhecer não é canonizar.

Respeitar não é submeter-se.

A diferença entre essas atitudes define, em grande medida, a distância que separa uma sociedade de cidadãos de uma multidão de devotos.

A primeira exige instituições fortes e homens responsáveis. A segunda prefere homens fortes e instituições submissas.

Eis o ponto fundamental.

Quando se permite que a mitologia substitua a história, que a idolatria substitua a crítica e que a propaganda substitua a realidade, as instituições começam a perder aquilo que possuem de mais precioso: sua credibilidade.

Não porque tenham sido questionadas, mas porque foram indevidamente confundidas com a reputação de seus ocupantes.

A realidade, entretanto, possui uma característica que os fabricantes de mitos costumam desprezar: ela não está obrigada a respeitar as narrativas que inventaram.

Pode ser disfarçada por algum tempo. Pode ser encoberta por discursos. Pode ser ornamentada por homenagens e protegida pelo silêncio conveniente dos aduladores.

Mas não desaparece.

Mais cedo ou mais tarde, os fatos cobram explicações. As contradições tornam-se visíveis. Os ídolos revelam sua humanidade. E os altares, antes considerados intocáveis, mostram a fragilidade de seus alicerces.

É nesse momento que se percebe o custo da idolatria: ao confundir a instituição com o homem, compromete-se a credibilidade daquela quando este revela suas fraquezas.

Uma República madura deve evitar precisamente esse resultado.

Não precisamos de novos mitos, de novos messias ou de novas divindades públicas. Precisamos de instituições respeitadas, regras observadas e autoridades conscientes de que o poder que exercem não lhes pertence.

Precisamos compreender que a grandeza de uma instituição não se mede pelo tamanho dos homens que a ocupam, mas pela capacidade de continuar íntegra quando esses homens deixam seus cargos.

A mitologia pode continuar povoando a imaginação humana. A idolatria pode permanecer nos domínios da fé. Mas a vida republicana deve pertencer à razão, à responsabilidade e à realidade.

Porque, afinal, quando os homens são colocados acima das instituições, não são eles que se tornam maiores. São as instituições que se tornam menores.

E uma nação que precisa ajoelhar-se diante de seus governantes, legisladores ou magistrados ainda não aprendeu a permanecer de pé diante de sua própria Constituição.

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