Ano 14 – vol. 06 – n. 81/2026
https://doi.org/10.5281/zenodo.21015468
Hoje retornei ao Apeadouro. Retornei à avenida João Pessoa, 58.
Atravessei o terraço. Entrei como se fosse um anônimo.
Baniva não latiu. Não vi seus saltos abanando o rabo e nem pude acariciar sua cabeça para que se acalmasse.
Olhei em volta, as cadeiras preguiçosas, estavam paradas.
Vi a cristaleira com as louças de pavões. Fui à biblioteca e percebi que a máquina Olivetti estava ainda com uma folha de papel amarelada pelo tempo. Nada escrito, ao menos que pudesse ser lido.
Por um instante o que achei de contraditório – um papel amarelado e sem um texto – logo se explicou. Ali havia uma história que foi contada. Apenas a narrativa era aparentemente invisível, porque tratava do tempo, essa criança teimosa e indomável.
Mas tudo foi um sonho. Aquele universo de memórias e lembranças irremediavelmente é uma impressão digital que nos acompanhará para sempre.
Despertei com a notícia de tua partida. Tua teimosa partida.
Não pude deixar de lembrar nosso encontro na missa de sétimo dia de nosso irmão mais novo, após o padre mencionar meu nome, em lugar do morto:
- Eu disse: Meu irmão, agora só eu e você.
Com a irreverência de sempre logo me respondeste:
- E daqui a um tempo só eu!
Rimos, porque nossa compreensão e cumplicidade estavam mais nas afinidades e menos nos encontros, embora todos eles nos fizessem renovar a promessa a papai de que seriamos unidos.
E agora partes como quem tenha sucumbido à saudade, precipitando minha orfandade plena. Daquela casa agora só eu.
Lembro nosso último encontro.
Embora limitado pela circunstâncias a lembrança jamais se apagará. Não julguei que fosse o último, embora quisesse me enganar como quem luta contra as circunstâncias.
Aprendemos muito um com o outro. Talvez eu até mais do que você, embora minha admiração, nem sempre expressada pela correção de rumos que eu havia de impor a vocês, como quem lembrasse nossas promessas, jamais impediram que uma profunda admiração fosse nutrida.
Da memória afetiva, além de tudo o quanto vivemos e fomos, tenho em minha casa, eternizados nas paredes, os trabalhos que teu talento de artista produziram – o neto do professor Pavão.
Do médico ficam os conselhos que, como paciente, resistias a obedecer:
- É pra fazer o que eu digo, não é pra fazer o que eu faço!
Mas também ficam as lembranças do profissional que não se deixou corromper pelas abordagens feitas no drama da pandemia:
– Meu irmão, não podia trair meu juramento, não podia trair meus pais. Como ficaria perante Deus?
Conscientemente descumpri sempre um de teus conselhos – o de médico.
Mesmo nas intempéries, mesmo diante das aflições, jamais deixei de te amar.
Segue em paz, meu irmão. Que nossos pais e irmãos te recebam e que vocês, agora, se tornem uma constelação.
Mas para que eu te tenha eternamente na lembrança com o bom humor de sempre, agora eu te digo:
- Tem tempo.!
Até um dia.