Ano 05 – vol. 05 – n. 05/2017
Acho que a voz de Paula Toller me acordou hoje. Sim, acordei com o refrão na cabeça daquela música do Kid Abelha que termina com o verso: “Depois de você, os outros são os outros…”.
Logo lembrei de alguns momentos em que o ex-presidente, hoje réu plural, Lula, no auge da inflamação do discurso populista, inaugurou essa fissura no povo brasileiro. Uma maniqueísmo abominável para quem jurou cumprir uma Constituição que tem como fundamento político o PLURALISMO, o que importa, fundamentalmente, em conviver com diferenças.
Conviver com diferenças, é fato, não é aceitar as injustiças, mas compreender que seu antagonista ou opositor pode ter razão. Neste caso, o discurso, só aumentou a fissura, transformando-a numa fratura social exposta. Eu mesmo, em sala de aula, cheguei a constatar o discurso de casa grande e senzala, numa visível apologia ao racismo e ao discurso de ódio.
No quadro atual do Brasil a fábrica de escândalos (o Congresso Nacional) nunca se aproximou tanto do crime organizado como agora. Por isso mesmo é preciso se pensar num novo Brasil, mas sem esse abismo que nos divide. É preciso separar o joio do trigo, mas não dividir o povo como se fossemos inimigos por discordâncias ou preferências.
O país é desigual? É claro que é. Tanto é que a própria Constituição reconhece e elegeu como objetivo fundamental “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais” – Artigo 3o, III.
Mas entre ser desigual, ser diferente e ser estimulado à segregação odienta há um abismo enorme, para dizer o mínimo. Nisso têm parcela significativa de responsabilidade os que fazem esses discursos populistas, bem como aqueles que os transformam em mantras.
Não há solução nesse quadro atual que passe pela magia de mudar a Constituição. Não é nela que está a crise. A crise é ética e moral.
Imagine neste momento falar em financiamento público de campanhas eleitorais! Como exigir do contribuinte isto se a esbórnia da corrupção com o dinheiro privado comprova que a fonte não é a causa, mas o próprio homem? A índole criminosa nascida com a “Lei do Gérson” de levar vantagem!
Sempre defendi e defendo a formação do sentimento constitucional. E não é achando que mudar a Constituição, como mudar a lei, que se mudará a consciência. Quem não tem capacidade de ter amor próprio, não é capaz de amar ninguém. Assim também, quem não é capaz de compreender o que é uma Constituição não tem aptidão para ser político e representar a base do poder – o povo – na mais pura expressão que essa palavra possa conter.
Quando vejo políticos mandatários defendendo uma Emenda à Constituição para eleições diretas num momento de crise constato que o “NÓS” apregoado nos palanques só pode se constituir de pessoas que traem a própria nação, pois querem descumprir o documento que juraram cumprir – a Constituição da República de 1988.
Mas também concluo que “ELES” são aqueles que, expondo em manchetes esses crimes que não podem ser escondidos, se alimentam de delações feitas com explícitas confissões de crimes, com alusões expressas a pessoas públicas, com sorrisos indisfarçáveis, assistidos por autoridades que sequer tem a cautela de examinar meios mecânicos e eletrônicos que poderão servir como instrumento de provas, embora já tenham servido ao propósito do tribunal da mídia, sem escolher a cara, sem escolher o partido.
E “OS OUTROS”? Bom, os outros somos EU e VOCÊ, que como camundongos de laboratórios somos objeto de experimentos, por empresários e políticos inescrupulosos, que conseguem corromper e serem corrompidos, e que, com o beneplácito das autoridades que se julgam acima do bem e do mal, asseguram que UNS POUCOS continuem a usufruir da paisagem da Quinta Avenida em New York.