Ano 08 – Vol. 02 – n. 10/2020
Eu vejo com imensa preocupação, como qualquer brasileiro que ame seu país, a divisão de seu povo por pessoas que um dia eu admirei na juventude, e pelas quais, na imaturidade da adolescência, acho que daria a vida.
Mas fui traído. Sim, fui traído por quem um dia me disse que as injustiças sociais poderiam ser substancialmente reduzidas ou eliminadas, pela utilização correta do dinheiro público.
Eu fui traído por quem jurou cumprir a Constituição, e outra coisa não fez senão negociar mandato, infringindo uma regra constitucional originária: a proibição da reeleição.
Eu fui traído por quem um dia me fez acreditar que falava por mim, chegando a desafiar a ditadura nefasta, aquela que quebrou a ordem constitucional, em nome de um país democrático que dizia não ao comunismo.
Mas a dinâmica do tempo é assim. Até as pedras se movem quando não resistem a força das águas.
Contudo, não fui traído pela minha consciência, que persiste acreditando na produção como forma de desenvolvimento, que crê na livre inciativa como fundamento, mas que tem a responsabilidade com a defesa da dignidade da pessoa humana.
Como advogado e membro do Conselho Federal da OAB me pus contrário ao discurso de que era hora de ser corporativista. Eu fui contrário quando suprimiram das solenidades “um minuto de silêncio em homenagem à senhora Lyda Monteiro, até que os assassinos da ditadura fosse identificados e julgados”.
Fiz uma reflexão há uns meses e cheguei à conclusão de que não posso ser corporativista, mesmo quando a OAB elege seus preferidos para rotular um discurso de defesa da democracia, mas é silente quando a dignidades de algumas mulheres, negros e outros seguimentos sociais são esculachados. Ou é democracia em que maioria e minoria têm direitos, ou não passa de uma ditadura maquiada.
Assim com a OAB assim com a ABI, assim com todos os meios de comunicação. Todos têm direito de ter suas opiniões, mas ninguém tem o direito de subverter a verdade, por um discurso ideológico que suprime o livre arbítrio e dispõe da vontade dos mais frágeis.
Eu insisto. Se a pessoa não compreender o que é o pluralismo político, não conseguirá compreender o que vem a ser democracia.
Cada um com sua liberdade de pensar, caso contrário vira a intolerância de que tantos falam como se contra fossem, mas adoram exercê-la exigindo uniformidade de pensamento, porque a corporação precisa ser defendida.
Para mim corporativismo é diferente de cumplicidade.