Ano 08 – Vol. 05 – n. 26/2020
Na vasta biblioteca de meu pai, lá na Av. João Pessoa, n. 58, no Apeadouro, eu me deparei a primeira vez com um livro cujo título é: RUI, O MITO E O MICO, de Osvaldo Eurico. Sua biografia está na internet. Aqui, basta dizer tratar-se de professor, jornalista, poeta e escritor que se elegeu deputado federal pelo vizinho Estado do Pará.
A obra, pretende retificar “as deformações da verdade histórica e recoloca em seu pedestal a imagem apedrejada”.
Com a técnica de destacar É FALSO, vindo a seguir o esclarecimento de cada tópico abordado, o autor desenvolve seus argumentos, algo similar ao que vez por outra encontramos nas redes sociais, destacado em letras garrafais; É FAKE!
“É falso que fôsse uma das vozes de resistência a Orvaldo Cruz, na campanha da vacina obrigatória. Limitou-se a defender prerrogativas individuais, buscando evitar pela prudência uma revolta desnecessária”.
Confesso, não sou um especialista em Rui Barbosa, mas é inegável que ele sempre cruzou o meu caminho e parece que uma vez mais isto aconteceu.
A “Turma Rui Barbosa”, da Faculdade de Direito de São Luís, teve meu pai, José Vera-Cruz Santana, como orador. Foi a turma de 1946, a primeira após a reabertura pós ditadura Vargas. Depois, minha vida acadêmica sempre teve presente a figura de Rui, por professores apaixonados que exortavam sua inteligência, na reiterada lembrança da “Águia de Haia” – quase vejo o Professor Domingos Vieira Filho destacando o ilustre baiano!
Bem mais tarde, ao receber a transferência da disciplina Direito Constitucional do meu sempre homenageado Mestre José Ricardo Aroso Mendes (ato de iniciativa dele, registro, sendo um dos homenageados em meu livro O PRÉ-CONSTITUCIONALISMO NA AMÉRICA) vi-me, mais uma vez, às voltas com Rui Barbosa, pois do presidencialismo ao federalismo, além dos mecanismos de controle de constitucionalidade, transitando por mandado de segurança e “habeas corpus”, muita coisa passou pelas mãos dele.
De que me vale Rui agora? Respondo: do trocadilho do título da obra para o dia de hoje.
O Brasil passou mais de uma dezena de dias sob a expectativa da revelação das gravações de uma tal reunião ministerial. Eram especulações de toda ordem por Bolsonaristas, Anti-Bolsonaristas, isentos, oportunistas e tanta gente que a temperatura e pressão subiam na medida de cada paixão. Cada um com suas escolhas. É a isto que, mais uma vez lembro, a Constituição da República chama expressamente de fundamento.
É chegado o grande dia e o Ministro Celso de Mello do Supremo Tribunal Federal resolve liberar as filmagens, ressalvando passagens que envolvam política internacional ou coisa parecida. E o que se viu?
Bom, as conversas do Motobar onde fui algumas vezes com meu pai eram mais decentes. Havia uma discussão efervescente, como, aliás, ocorria naquela época que antecedia o movimento militar de 1964, mas a mim o que importava era o pastel e a Cola Guaraná Jesus. As conversas que mantive e mantenho com amigos em bares foram e são mais decentes, o que não significa dizer que sejam pudicas, mas muitos dos termos que não usamos a teledramaturgia no Brasil se encarrega.
O que, então, Rui Barbosa tem com isso? Ora, o título da obra que o homenageia é próprio. O mico envolve as instalações de um símbolo de poder, o palácio, além do desfile de palavrões, retransmitidas em todos os canais de televisão do mundo democrático.
O mito? Bom, assim o consideram os seguidores do Presidente Bolsonaro, e, portanto, o título da obra serve ao trocadilho, não podendo eu (diante das circunstâncias) dizer até que poderia ser feito um “trocadalho do carilho”.
Eu só não vi o que esperava ver, mas aí é assunto para uma outra oportunidade. Mas eu fico imaginando o que terá sido preservado em sigilo, para abertura daqui a 30 anos, sobre nossa política internacional.
Para que não fique no imaginário, na loucura da rede social, onde a interpretação é livre e, às vezes, doentia, pelas paixões abraçadas, lembro que não tenho nada contra o palavrão, mas até para mandar alguém à merda é preciso saber escolher o local e a entonação certa.
Um comentário em “O MICO E O MITO”