Ano 08 – Vol. 08 – n. 45/2020
Há pouco menos de um mês escrevi sobre a morte de Waldemiro Viana e Milson Coutinho, dois intelectuais membros da Academia Maranhense de Letras.
Hoje, mais uma vez, com pesar, volto a escrever sobre o assunto. Agora, pela morte do também intelectual Sálvio Dino.
A vida é uma especie de diário em que apontamentos são feitos, todos eles, sem que para isto haja uma borracha capaz de apagar infortúnios. “A vida é combate” e só os bravos sabem combater com resignação as adversidades. No diário do Sálvio Dino não foi diferente, embora os teclados de máquinas de datilografar das “fichas de identificação” tenham tentado reescrever o que nem o carimbo transversal em tinta vermelha conseguiria imprimir. O tempo passou, o papel amarelou e o homem sobreviveu.
Conheci Sálvio Dino através de meu pai que conheceu seu pai. De alguns dos seus filhos me tornei conhecido com algum tipo de convivência.
De Nicolau Dino, além de mais próximo porque fomos colegas de Procuradoria Geral do Estado e do Departamento de Direito na UFMA, com ele tive o prazer de passar e aprender no TRE, ele como Procurador da República, eu na classe de jurista. De Flavio Dino fui professor na UFMA como, também, colega de bancada no mesmo TRE, quando por ali ele passou como Juiz Federal e colega de magistério atualmente. Do Sálvio Júnior guardo a lembrança de ter composto sua banca de TCC, além do convívio na OAB. Com Saulo não convivi, mas sou solidário também neste momento.
Recordo da época do TRE que recebi de presente da então Diretora Geral, Irtes Cavaignac, uma cópia da ata da sessão em que há o registro de um dos votos que se recusaram a cassar o mandato do deputado Sálvio Dino – era o de meu pai. Este fato, a par de aplacar qualquer dúvida, ensinou-me que nem a opressão é capaz de debelar princípios, quando são forjados com solidez.
O fato, bem mais tarde, me foi lembrado pelo próprio Sávio, quando, como Procurador Geral do Estado, foi ao meu gabinete para (segundo ele) agradecer “ter resolvido definitivamente a situação financeira dos procuradores do Estado”. Disse-lhe apenas que eu estava no local certo no momento exato em que se encontrava o “governador liberador” – Jackson Lago.
O gesto daquele homem, ao contrário de tantos que não souberam passar pelo poder, foi digno de admiração. Muitos outros encontros tivemos, todos de aprendizado para mim.
Lembro de sua posse na AML, da noite de autógrafos da obra sobre a Faculdade de Direito do Maranhão “A catedral da cultura da rua do Sol” (livro de consulta obrigatória sobre a história contemporânea do Maranhão) e quando da homenagem a ele e a Benedito Buzar em que tiveram, simbolicamente, seus diplomas de deputados devolvidos pela Assembleia Legislativa, posto terem sido cassados pela ditadura militar.
Quando vi o corpo de meu pai deitado naquela urna funerária eu tive a dimensão da dor que é ver partir quem me segurou um dia nos braços. Ele sentira, antes, a dor jamais curada de perder um filho, e se confortava na mais singela e sublime compensação de imaginário conforto: “Já refletiste? Jamais terei a imagem de teu irmão com cabelos embranquecidos”!
Sálvio Dino embranqueceu os cabelos sem envelhecer a alma, porque amadureceu com o discernimento de quem compreende o tempo, cadencia os passos e continua a caminhada sem transigir com seus princípios.
A vida parte deixando dores que se tornarão lembranças; algumas vagas, outras solertes. Sálvio Dino não será um desses imortais que partem sem deixar um pouco de si. A dor que fica hoje é um carimbo impresso que jamais amarelará porque em letras vivas dirá na eternidade: Liberdade!
Siga em paz, colega Sálvio Dino. Teus frutos já frutificaram.
Um comentário em “VIDAS QUE VÃO, DORES QUE FICAM”