Ano 08 – Vol. 08 – n. 46/2020
– Como vai o senhor?
– Vivendo. Quero de antemão informar que resolvi homenagear alguns colegas. Farei uma inauguração da biblioteca e cada estante terá o nome de um deles. Vera-Cruz, para honra minha, será um dos homenageados. Você será comunicado.
Virou-se para a pessoa que o acompanhava e disse:
– Este jovem (pura delicadeza) é filho de um dos maiores homens que eu tenho o prazer de dizer que era meu amigo. E continuou dizendo o que costumava a repetir:
– Quando falamos de algumas pessoas sempre ocorre um “mas”. Fulano era um profissional dedicado, mas… O vera-Cruz não tinha “mas”. O único defeito era a humildade em excesso.
Minha gratidão veio com a afirmação de que honrado estava eu ao saber da notícia. Que me faria presente.
Este diálogo foi do último encontro que mantive com o dr Kleber Moreira, na Livraria do Advogado, onde nos encontramos algumas vezes, prática preservada com habitualidade por poucos advogados.
Tivemos uma viva convivência quando ele e papai possuíam escritórios no Ed. Colonial, na Rua do Sol. Na OAB integramos Comissões e grupos que deram amplitude e dinamismo àquela instituição, em tempos em que era a democracia, e não as pessoas, que importavam.
Profissional de delicado trato, muitas vezes estivemos em lados opostos, contudo, com a clara compreensão de que ao fim da audiências as peças do xadrez voltam para a mesma caixa.
Lembro que em alguma solenidade da OAB que nos permitiu alongar mais o bate papo eu o “batizei” como príncipe dos advogados, pela cordialidade e educação com que tratava os colegas. Jamais o vi alterar o tom de voz, ainda quando não concordasse com seu opositor.
A advocacia padece de gente assim. Desde que fui Procurador Geral do Estado abandonei a advocacia privada por opção. Mas como advogado público me deparo com excessos vocabulares que traduzem a falta de compreensão da responsabilidade de pacificação que também é atribuição do advogado. Tudo isto, muitas vezes, vem acompanhado de uma linguagem que se divorciou do idioma apropriado. Disto não padecia dr Kleber Moreira. Ao contrário, integrou uma geração que escrevia com observação quase submissa ao idioma, sem neologismos.
O mês de agosto de 2020 tem nos causado muito desgosto. Muitas perdas. Muita saudade. Muita dor.
Hoje, ao entrar no meu modesto escritório-biblioteca não pude deixar de me lembrar do príncipe dos advogados, ao me deparar com obras como O Dever do Advogado, do célebre Ruy.
Aos mais jovens esclareço que o livro nasce de uma consulta feita pelo também notável Evaristo de Morais sobre se deveria ou não defender um homem acusado de homicídio. Trata-se de um libelo sobre a ética profissional, cuja leitura é dever de todos.
Dr Kleber Moreira guardou essa postura. Ético, educado, cortês e, sobretudo, advogado, como dizia meu pai, de boa cepa.
Segue o príncipe dos advogados para se juntar aos seus diletos colegas, quem sabe para um reencontro que não precise de processos, posto encontrarem, todos eles, finalmente, a verdadeira JUSTIÇA!
Merecida homenagem ao Príncipe dos Advogados!