REPÚBLICA DE JOELHOS

Ano 09 – vol. 04 – n. 33/2021

A redemocratização do Brasil foi uma das maiores esperanças que eu nutri na minha vida.

Queríamos votar para presidente, governador…queríamos votar porque isto seria a redenção de gerações (pobre de nós) que achávamos que eleições diretas seriam a solução.

Recuperamos o direito ao voto. Elaboraram uma nova Constituição que juraram cumprir com proclamação solene de “ódio à ditadura”. Mas não é bem o que se vê. Esqueceram-se que, às vezes, a caneta é mais letal do que o fuzil.

No Brasil, diariamente, assistimos ao descompromisso constitucional. Não precisa ser um especialista para compreender. Separação de Poderes, invasão de competências, supressão de direitos fundamentais, tudo, simplesmente tudo, tem sido violado no Brasil.

O Estado Democrático de Direito tão sonhado não passa de uma locução retórica. Vive-se um período de exceção das piores, como aquela época que minha geração chamou de “anos de chumbo”.

Como nas ditaduras mais cruéis a Constituição não passa de um farrado de que se puxa um fio a cada dia.

Nós, brasileiros, já tivemos com quem contar um dia. Hoje, abandonados por todos (rigorosamente, todos) assistimos a República posta de joelhos.

DIÁLOGO DO “CIENTISTA” DOS DIAS ATUAIS

Ano 09 – vol. 04 – n. 32/2021

A manhã ensolarada e o enclausuramento forçado foram motivos suficientes para que um cientista e um (quase) leigo – amigos de escola – saíssem para caminhar.

A alegria de se encontrarem foi visível. Literalmente visível, porque as máscaras esconderam os sorrisos, mas o brilho nos olhares traduziu o carinho de ambos. O olhar não mente.

As lembranças passadas produziram risadas, só interrompidas pelos acontecimentos do momento presente. Inevitavelmente o encontro desembocou no diálogo a seguinte:

Sigo a ciência – Diz o cientista.

⁃ Sim, mas, qual?, indaga o (quase) leigo.

⁃ A ciência comprovada, responde o cientista.

⁃ Mas como se chegou à comprovação? indagou o (quase) leigo.

⁃ Bom, isto requer estudos, experimentos.

⁃ Ah! Compreendi. Requer estudos e experimentos sob quantas hipóteses? Só uma?

⁃ Não necessariamente. A ciência nem sempre se faz partindo de uma única hipótese. Aliás, pode até ser, mas no caminho na busca da resposta podem surgir outras hipóteses.

⁃ E o que é feito?

⁃ Bom, aí o cientista contrapõe hipóteses, observa circunstâncias, desconfia, volta a contrapor-las, duvida sempre e segue na pesquisa.

⁃ Então, quer dizer que a resposta não prescinde de testes, correto?

⁃ Correto!

⁃ Então, para haver testes que comprovem uma tese científica é necessário que se desconfie de evidências.

⁃ Sim, todo cientista é um curioso antes de tudo.

⁃ Ah! Curioso não é igual a ser preconceituoso e prepotente, não é?

⁃ Claro que não! Que tolice! Eu sigo a ciência!

⁃ Ah! Agora eu compreendi. Ciência é aquilo que você diz que é e que descarta as opções empíricas que os outros possam ter, ainda que algum dia possam ter servido como ponto de partida para uma descoberta.

⁃ Chega! Desisto!

⁃ O que foi?

⁃ Eu disse chega. Eu sou cientista. Tu não entende de ciência!

Fim da amizade. Começo do obscurantismo pela “visão científica monocular”.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Ano 09 – vol. 04 – n. 31/2021

Não sei se é possível determinar a “nacionalidade” da coisa. Bom, talvez no Brasil, porque aqui nossa pátria amada pariu uns filhos da…pátria, que nem de vira-latas têm o complexo. Eu respeito os animais.

Certo, porém, é que a sabedoria popular contida nos sábios conselhos de avós, quando o assunto é amizade, parece ter sido moldada para os tempos atuais: Faz que nem água e azeite – te une, mas não te mistura.

Pois não é que essa coisa tem a capacidade de discernimento? Ela só aparece durante o dia em praias desertas, em comércios, em igrejas, em estádios de futebol, nas escolas… Não, não entra em farmácias e supermercados, mas identifica o vendedor de verduras num instante. Logo a coisa se complica e proliferam os cumpridores de ordens ilegais. Puro abuso de autoridade. Ah!, também não entra em transportes coletivos, sabe como é. A coisa prefere exatamente escolher quando e onde vai por ela mesma.

Acharam que eu falava de quem? Não, não se trata de nenhuma máquina que mesmo na linguagem binária tenha na velocidade sua primazia. Falo da pandemia política do Brasil em que seletivamente se elegem heróis e bandidos, enquanto sua gente (conquanto só por linguagem alguns assim devessem ser considerados) se digladia com vestes de médicos e loucos, porque disso todos são um pouco.

Aqui, eficácia farmacológica virou apêndice de liminares e sentenças, a ciência se constrói com apenas uma hipótese científica, a que convier à mídia de aluguel.

Enquanto esse drama se desenrola a sanidade doentia (a contradição é proposital – antes que a patrulha apedreje) parece só não estar atingindo uma dimensão: a inteligência artificial do vírus, que escolhe hora e lugar para atacar.

Só pode ser isso. A inteligência artificial do vírus inoculou o bom senso. Mas só dos que um dia tiveram.