DIÁLOGO DO “CIENTISTA” DOS DIAS ATUAIS

Ano 09 – vol. 04 – n. 32/2021

A manhã ensolarada e o enclausuramento forçado foram motivos suficientes para que um cientista e um (quase) leigo – amigos de escola – saíssem para caminhar.

A alegria de se encontrarem foi visível. Literalmente visível, porque as máscaras esconderam os sorrisos, mas o brilho nos olhares traduziu o carinho de ambos. O olhar não mente.

As lembranças passadas produziram risadas, só interrompidas pelos acontecimentos do momento presente. Inevitavelmente o encontro desembocou no diálogo a seguinte:

Sigo a ciência – Diz o cientista.

⁃ Sim, mas, qual?, indaga o (quase) leigo.

⁃ A ciência comprovada, responde o cientista.

⁃ Mas como se chegou à comprovação? indagou o (quase) leigo.

⁃ Bom, isto requer estudos, experimentos.

⁃ Ah! Compreendi. Requer estudos e experimentos sob quantas hipóteses? Só uma?

⁃ Não necessariamente. A ciência nem sempre se faz partindo de uma única hipótese. Aliás, pode até ser, mas no caminho na busca da resposta podem surgir outras hipóteses.

⁃ E o que é feito?

⁃ Bom, aí o cientista contrapõe hipóteses, observa circunstâncias, desconfia, volta a contrapor-las, duvida sempre e segue na pesquisa.

⁃ Então, quer dizer que a resposta não prescinde de testes, correto?

⁃ Correto!

⁃ Então, para haver testes que comprovem uma tese científica é necessário que se desconfie de evidências.

⁃ Sim, todo cientista é um curioso antes de tudo.

⁃ Ah! Curioso não é igual a ser preconceituoso e prepotente, não é?

⁃ Claro que não! Que tolice! Eu sigo a ciência!

⁃ Ah! Agora eu compreendi. Ciência é aquilo que você diz que é e que descarta as opções empíricas que os outros possam ter, ainda que algum dia possam ter servido como ponto de partida para uma descoberta.

⁃ Chega! Desisto!

⁃ O que foi?

⁃ Eu disse chega. Eu sou cientista. Tu não entende de ciência!

Fim da amizade. Começo do obscurantismo pela “visão científica monocular”.

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