Ano 09 – vol. 04 – n. 38/2021
Há muitos livros que são instrumentos de trabalho para quem é professor de Direito. Muitos mesmo são úteis para que se possa discutir temáticas como política, justiça, ética, poder, prisões, absolvições, condenações, penas etc. E a riqueza que a arte nos põe à disposição é infinita. Há, entretanto, momentos, em que, sem nenhuma película produzida, sem qualquer festival em curso, sem nem mesmo existir prêmios, são gestados espetáculos que nos põem a refletir e indagar: Seria drama, comédia, ou só espetáculo circense?
Nem de longe se queira imaginar que este escriba pudesse produzir um roteiro da sétima arte, mas a imaginação não precisa de qualificação acadêmica, ela flui de diversas formas e nos invade a criatividade.
Hoje tive um breve instante a observar uma dessas passagens de um roteiro que é um filme rodado ao contrário. Ele começa pelo final da estória, sem que se saiba como inicia o filme, ou melhor, sabe-se sim, mas o embate de protagonistas faz dele uma obra composta de cenas de um roteiro pantominico, se assim posso chama-lo.
O teatro, o Senado Federal. O cenário, a CPI sobre a saúde. O roteiro, um conjunto de atos coordenados com takes fixados em obviedades tão incipientes que faz da plateia, ainda mais, um público que se diverte com o que lhe roubam, como se natural fosse.
Penso não haver dúvida de que a CPI é um dos instrumentos mais compatíveis com a democracia, depois da expressão popular com o exercício da soberania, através do voto que constitui os representantes do povo. O que dela fazem, entretanto, em cortes de cenas que transformam o drama em uma mistura de um triller policial e uma comédia pastelão, é de um descaramento absurdo, um filme de baixo orçamento na qualidade, mas substancialmente oneroso é o ingresso cobrado.
Como pode o diretor da filmagem e o roteirista serem pessoas que devam explicações ao Poder Judiciário, o proprietário da rede dos cinemas? Como se esperar uma obra que relate fatos despidos de versões? Como ousarem esses artistas fazer a plateia acreditar que o drama não seja transformado em um espetáculo circense, que sem maquiagem nos rostos, livre do picadeiro os figurantes nascidos em berços esplêndidos que reverberam nos tablados os espetáculos mambembes?
Impunes, cobrando ingressos, às gargalhadas, assistem a nós todos, que não somos bem vindos ao picadeiro, porque sempre haverá a desculpa de que a lona está furada e está chovendo.
Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! E o palhaço o que é? É ladrão de mulher!
O Brasil já não é um teatro, é o próprio picadeiro, em que o dono do cinema diz o que quer, o palhaço é seu povo, de quem riem os roteiristas, que ao sabor dos seus cardápios, nos mandam o ingresso para um espetáculo cujo final já se sabe.
Talvez De Gaulle nunca tenha dito o que lhe atribuem, mas os Poderes da República conseguiram dar-lhe razão: O Brasil não é um lugar sério.
Os altofalantes anunciaram aqui: Hoje tem espetáculo!