Ano 10 – vol. 03 – n. 18/2022
O Brasil e as suas idiossincrasias. Eis que de repente vira pauta de mídia e assunto das redes sociais a aventura amorosa de um morador de rua. Logo matéria prima para memes dos mais diversos tipos foi batizado como o “mendigo pegador”. Hilário? Nem tanto.
O país em que tatuar o ânus é assunto que ocupa espaço do noticiário, caneta azul é celebrado como artista, ladrões são ungidos pela Justiça nada é demais. Sempre falta uma estultice como essa de um mendigo que foi agredido impiedosamente por um marido traído.
O fato (a infidelidade) tão comum (eu não disse, normal) e descriminalizado no Brasil ganhou contornos lúdicos nas narrativas por envolver um morador de rua e uma senhora jovem.
Entrevistas logo foram agendadas e o entrevistado, reconheça-se, com desenvoltura melhor do que muitos dos candidatos até aqui conhecidos, alimentou o ego próprio e de muitos, ao ter a pachorra de relatar tudo o que provavelmente ocorreu e mais o que o imaginário locubrou , como se redigisse uma cena de filme pornô, mas atento à linguagem quase escorreita.
Esse o indivíduo, glamorizado pela mídia e redes sociais, fornece combustível a uma sociedade doentia em larga margem. Nada contra o sexo, mas pelo desrespeito à mulher que, até onde eu tenha lido, não mereceu a mais pálida linha escrita pelos movimentos de defesa da mulher. Nem mesmo em função do exercício machista detalhado do que ocorreu na intimidade dos dois.
Este acontecimento exige uma reflexão sobre essa praga chamada Teoria Crítica, uma relativização de tudo gestada no que se denomina Escola de Frankfurt e hoje permeia nossas vidas. Tudo deve questionar o instituído como se nada tivesse base de sustentação. É a tal reconstrução agora denominada de ressignificação.
Você, caro leitor, já parou para refletir sobre a tratativa do assunto num momento em que bandidos são transformados em heróis, como se o errado estivesse certo? Já refletiu sobre como o casamento (ou união estável) está sendo tratado nesse episódio? Já conseguiu perceber que o enfatizado como virtude é o ato sexual e não a lealdade entre as pessoas? Já notou a banalização humana recebendo elegias? Pois é, reflita. Quem não aprender com seus próprios erros jamais será homem. Pode ser do sexo masculino, mas há uma distância imensa. Isto serve também para as mulheres, sobretudo as caladas neste momento.
Assisto com imensa tristeza esses acontecimentos com a cumplicidade silenciosa das mulheres, das instituições de defesa da pessoa humana, enfim, dos arautos de defesa das formigas da Amazônia. Mas tudo ainda pode piorar.
Acabo de ler que há pelo menos três agremiações partidárias no encalço do mendigo para que concorra a um cargo eletivo. Não sei se é artifício para alcançar quociente te eleitoral, uma espécie de falsificação da realidade, se é o desejo de passar pela mesma experiência ou se é outra coisa, embora saiba identificar pessoas assim. São as mesmas que não passam de mendigos de espírito.
Gozações à parte
Excelentes reflexões, meu amigo.
Obrigado. Sua avaliação é importante